A luz na gênese do espetáculo
l’orfeo como afirmação da luz no dramma per musica
L’orfeo como afirmação da luz no
dramma per musica
Na transição entre os séculos XVI e XVII, os artistas romperam os
limites da estética musical do mundo aristocrático, traçando novos caminhos e caracterizando a vida através de uma mentalidade emergente da poderosa burguesia que ascendia na Europa, num processo que envolvia o crescimento das cidades e o desenvolvimento econômico das Cidades-Estado. Tal atividade se relacionava a um comércio cada vez mais globalizado e o fomento da produção de bens manufaturados.
A burguesia ascendente e enriquecida investiu não apenas no
poder políticomilitar, mas também numa educação abrangente e sofisticada para seus filhos, até superando a aristocracia. Pode-se dizer que os aficionados pela música eram amadores no sentido positivo da palavra, na sua maioria, tratando-se de profissionais liberais, advogados, juízes, médicos, entre outros, que tinham no aprendizado musical uma atividade regular de sua formação, estudando disciplinas como harmonia e contraponto, dentre outras, prática já comum na aristocracia e que se estabeleceu na burguesia emergente nas Cidades-Estado da Itália.
Claudio Giovanni Antonio Monteverdi (1567-1643), em particular a
sua ópera L’Orfeo, [em parceria com o libreto de Alessandro Striggio
(ca. 1573-1630), 15 publicada na cidade de Mântua em 1607], pode ser mencionada como representante do primeiro estágio de organização da ópera. A escolha de Orfeu como figura central da ópera de Monteverdi/Striggio foi uma decisão emblemática. Na mitologia grega e também na sua acepção romana, ele tinha especial talento musical, com poderes mágicos, era instrumentista virtuose com a lira, inventor da cítara e cantor. Além disso, Orfeu era um semideus, uma personagem próxima do homem que lutava para se impor na ascensão burguesa, e não uma figura mítica isolada na instância divina.
Há versões que o apresentam como filho de Calíope e Oeagrus,
um rei da Trácia; no Symposium, Platão afirma que ele é filho de Apollo. Ora, mesmo aceitando a última versão, não se pode esquecer que, ainda assim, Orfeu é o filho da mais importante entre as nove irmãs Musas – filhas de Zeus e pertencentes ao cortejo de Apolo, deus da música; vale lembrar que as Musas se transfiguraram em deusas da inspiração poética. O Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa (indica a raiz etimológica do termo música: “[…] mousikós, ê, ón (dórico mousiká) ‘que diz
respeito às Musas, à poesia, às artes, esp. à música’”.16 Ruth Guimarães (1995, p. 239) acentua, referindo-se a Orfeu: “Suas cantigas eram tão suaves que as feras o seguiam, inclinavam-se as árvores para ouvi-lo e os homens mais coléricos sentiam-se penetrados de doçura e bondade”. E acrescenta que ele fez parte
da jornada dos Argonautas, 17 sendo o responsável por estabelecer a cadência dos remadores.
Na ópera, a saga de Orfeu inicia-se quando sua esposa Eurídice
é picada por uma serpente, enquanto foge da perseguição de Aristeu, que em alguns relatos aparece com um sátiro. Diante do corpo sem vida da amada, o herói entoa canções de profundo lamento, fazendo chorar as Ninfas. O imenso amor a ela devotado e o sofrimento originado na perda impelem Orfeu numa jornada ao Hades (do termo grego Haidés, um nome de Plutone, o deus dos mortos), com o intuito de trazê-la de volta à vida.
Uma pesquisa originada pela intenção de aproximar L’Orfeo de
Monteverdi e Striggio da práxis cênica, leva a Ovídio e suas Metamorfosi. Mesmo tendo sido acusado de imoral no seu tempo e exilado por ordens do imperador Augusto, a importância de Ovídio para a poesia do Renascimento foi decisiva e L’Orfeo é considerada um relevante modelo para o período. Tratando-se de um clássico, em língua estrangeira, o considerável volume de estudos que incorporam a obra de Ovídio pode sugerir pesquisa exaustiva, mas gratificante, para alcançar abrangência. Destaque-se a abordagem de Italo Calvino (2009, p. 37, grifo nosso), que assim se refere às Metamorfosi:
As metamorfoses são o poema da rapidez, tudo deve seguir-se em ritmo
acelerado, impor-se à imaginação, cada imagem deve sobrepor-se a outra
imagem, adquirir evidência, dissolver-se. É o princípio do cinematógrafo:
cada verso como fotograma deve ser pleno de estímulos visuais em
movimento.
Considere-se o interesse de Calvino pela imagem, assimilando a
contribuição da imagem para o seu pensamento. A simbiose que faz interagir poesia, imagem e movimento, apresenta um terreno muito fecundo para as reflexões do presente contexto.
O poema de Ovídio é constituído por episódios cuja narrativa
elabora uma tessitura de imagens que tomam como provocação a origem do universo, sugerindo investigações acerca de rotas transversais ligadas às ideias provocadoras de um espetáculo:
Antes do mar, da terra e céu que tudo cobre, | Não tinha mais que um
rosto a Natureza: | Este era o Caos, massa indigesta, rude, | E,
consistente só num peso inerte. | Das coisas não bem juntas as discordes,
| Priscas sementes em montão jaziam | O Sol não dava claridade ao
mundo, | Nem crescendo outra vez se reparavam | As pontas de marfim da
nova Lua […]. (OVÍDIO, 2006, p. 1, grifo nosso)
Num constante fluxo que desliza vigorosamente constitui-se a
desordem imposta no conflito instaurado pela ausência da luz. Na tradução do poeta português Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du
Bocage (1765-1805), o sol aparece em lugar do Titã, e Febe 18 assume a figura da lua crescente, com suas extremidades pontiagudas; trata-se de uma configuração de natureza poética, já que o autor introduz a lua sem que ela existisse, pois suas fases dependem da relação direta com o sol, que ainda não iluminava o mundo.
Ar, e pélago e terra estavam mistos:
As águas eram, pois inavegáveis.
Os ares negros, movediça a Terra,
Forma nenhuma em nenhum corpo havia,
E neles uma coisa a outra obstava,
Quem em cada qual dos embriões enormes
Pugnavam frio, e quente, úmido, e seco,
Mole, e duro, o que é leve e o que é pesado.
(OVÍDIO, 2006, p. 15-16)
Na condição de verbos ativos, obstar e pugnar indicam a tensão
presente na “[in] existência” composta de ares negros, que precedem a introdução da luz, e indica a energia que instalará a vida no planeta. No Livro I, Ovídio (2006, p. 16) trata da transformação do caos em organismo de nova ordem: “[…] Para que a Terra | não fosse desigual em parte alguma, | Por todas a compôs
na forma de orbe”. 19 Ele insere a fábula de Orfeu no Libro (ou capítulo) X da Metamorfosi, que se apresenta como um poema sequenciado num total de 15 libri. Assim como na abertura do mito da criação, o poema se inicia nas trevas:
De rutilantes vestes adornado
Himeneu rompe o ar, à Trácia voa
Lá donde o chama Orfeu, porém debalde.
O deus sim presidiu do vate às núpcias
Mas não levara ali solenes vozes,
Nem presságio feliz, nem ledo rosto.
Sentiu-se apenas crepitar-lhe o facho,
E em vez de viva luz soltar um fumo
Tentou co [sic] movimento erguer-lhe a chama.
O efeito foi pior que o mesmo agouro.
(OVÍDIO, 2006, p. 77, grifo nosso)
Convidado por Orfeu para a celebração de sua união com
Eurídice, o deus Himeneu20 vê sua tocha fracassar e não prover a luz que o júbilo da ocasião demanda, mergulhando em fumaça o ambiente. Uma poderosa imagem anunciadora dos eventos e, portanto, da atmosfera que se aproxima. Na versão usada por Striggio, a heroína morre depois de picada por uma serpente, enquanto passeava acompanhada das ninfas. Após chorar a dor da sua enorme perda, o semideus decide confrontar as sombras das
profundezas e trilha os rumos negros do rei das trevas. 21 (OVÍDIO, 2006) Entoando versos e tocando a lira, faz da música sua força e do seu amor o suporte da resignação, para até mesmo permanecer no Hades, se ali estiver a solução para continuar perto de sua mulher: melhor prisioneiro das trevas do que retornar sem a amada.
O poder da música comove Proserpine (nome de Perséfone, entre
os romanos), que intercede a seu favor e convence o marido Plutone (Hades); Orfeu tem de volta a esposa, ganhando o direito de levá-la num triunfal retorno à vida, sob uma condição: “[…] Recebe o trácio Orfeu sua bela esposa | Lei de que para trás não volte os olhos | Enquanto for trilhando o feio abismo, | Se nula quiser a graça extrema”. (OVÍDIO, 2006, p. 79) Ora, é uma grave imposição: ter bem próxima de si a mulher amada, suplantando tamanho infortúnio e alcançando imensurável vitória, sem poder vê-la. Orfeu dirige-se para longe das trevas, seguido de Eurídice; a tentação e o desejo de contemplá-la, de confirmar sua presença com a visão, entretanto, levam-no a – já nas fronteiras entre o tártaro e a luz – olhar para trás:
Temendo o amante aqui perder-se a amada,
Cobiçoso de a ver, lhe volve os olhos:
De repente lha roubam. Corre, estende
As mãos, quer abraçar, ser abraçado,
E o mísero somente o vento abraça.
[…]
E recai a infeliz na sombra eterna.
(OVÍDIO, 2006, p. 79, grifo nosso)
Orfeu sucumbe à tentação da visão, da luz, e paga por isso, pois,
mesmo alcançando a vida, mergulha nas trevas da sua perda. Desrespeitando o acordo, ele vê o objeto da sua paixão pela última vez: Eurídice desvanece, transformando-se numa sombra e sumindo para sempre. Retornando sozinho à superfície, ele mantém inabalável a fidelidade e o amor por Eurídice, alimentando o ciúme e a ira das bacantes, que o matam. Como em grande parte dos temas da mitologia, há versões e interpretações diferenciadas e ambíguas.