A luz na gênese do espetáculo

Eduardo Tudella · Capítulo 43 de 59

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A luz na gênese do espetáculo

Avanços teatrais sob a égide das tecnologias

Avanços teatrais sob a égide das

 

tecnologias

 

Uma possível hegemonia dos efeitos está certamente ligada a

transições tecnológicas que ocorreram a partir do século XVIII e fizeram surgir novos aparatos, acessórios e sistemas de controle, cuja aplicação resultou em mudanças progressivas nos espetáculos.

Patenteada em 1780, a lâmpada Argand4 pode ser citada como

um desses passos na mudança da visualidade na cena. A acomodação de um pavio cilíndrico num receptáculo (uma chaminé de vidro em forma tubular) que controlava o fluxo de ar, fazendo-o circular em torno do pavio e produzindo maior brilho da luz com mais estabilidade para a chama. A diferença pode ser sutil e parecer pouco ao olhar de hoje, acostumado a tanta diversidade. É possível, entretanto, imaginar uma luz menos “nervosa” e mais “brilhante” se comparada àquela resultante da oscilação das velas, assim como de outras luminárias a óleo. Ficava efetivada, assim, uma maneira diferente de ver a cena.

A lâmpada Argand exigiu esforços do pesquisador em busca de

aperfeiçoamentos: a inovação do pavio acionado mecanicamente permitia controle da chama e, consequentemente, da intensidade da luz através de ajustes no seu movimento vertical. Na França, foi chamada de Quinquet depois de comercializada e, segundo alguns, aperfeiçoada pelo farmacêutico Antoine Quinquet (1745-1803). Sabe-se que o artefato passou por mudanças para contornar desvantagens como a agressividade da chama que podia danificar a chaminé de vidro; além disso, a dimensão do recipiente de óleo, que gerava uma importante área de sombra, impunha modificações. Ainda que a informação acerca da luz aplicada à cena, no início do século XIX na França, seja escassa, Bergman presume que o problema específico deve ter suscitado modificações da lâmpada Argand para implantar seu uso no teatro. É, então, presumível que pode ter sido instalada uma superfície refletora (réverbère) entre a chaminé e o depósito de óleo, desenvolvendo o princípio aplicado na Renascença italiana.

Outro passo importante da tecnologia foi alcançado com a luz a

gás, repercutindo decisivamente no espetáculo teatral. (BERGMAN, 1977) Desde o final do século XVIII, um técnico da área da produção industrial de máquinas a vapor, William Murdoch (1754-1839), trabalhava em pesquisas, e iluminou a própria casa aplicando luz a gás, já em 1792.

O próprio Murdoch publicou no Nicholson’s Journal, volume XXI

(1808), relatos dos seus experimentos, comentando a produção de gases com a aplicação de diversas substâncias minerais e vegetais. Ele conduziu observações com a queima de carvão, usando também turfa, madeira, assim como outras substâncias inflamáveis. O depoimento de William Richards atesta a veracidade desses relatos:

 

Esse é o modesto e claro relato redigido pelo Sr. Murdoch sobre a origem

e o progresso das primeiras tentativas acerca da luz a gás, cujas

afirmações foram depois confirmadas pelo Dr. William Henry, de

Manchester, e vários outros, também pelo Sr. James Watt Jr., mencionado

adiante, o que não deixa possibilidade de dúvidas sobre a fidelidade da

narrativa […]. 5 (RICHARDS, 1877, p. 11, tradução nossa)

 

Esse momento registrou a presença de outros interessados na

mesma questão: na França, Phillipe Le Bon [ou Lebon] (1767-1804),

na Suécia, C. Reuterona (?), e Fredrick Albert Wintzler 6 (1763-1830), na Morávia. Com sucesso diferenciado, cada um deles buscou caminhos próprios, pesquisando, escrevendo e/ou divulgando alternativas para a aplicação da nova tecnologia, com particularidades em cada processo, mantendo o princípio da produção de aquecimento e/ou luz através do uso do gás. Richards (1877) assinala a presença da thermolampe (1801), um artefato desenvolvido por Le Bon, com o qual ele não alcançaria sucesso ao buscar sua produção em escala industrial e comercialização.

Depois de adquirir o monopólio da invenção de Lebon, C.

Reuterona publicou um panfleto denominado Uma descrição da thermo lamp [A description of thermo lamp (1804)], mas recebeu grande resistência da Academia Real de Ciências de Estocolmo, que considerou a produção do invento muito cara e prejudicial à saúde. Fredrick Albert Wintzler estudou a invenção de Le Bon e, em 1803, proferiu uma palestra seguida de exibição, denominada Luz a gás (Gaslight), no Lyceum Theatre em Londres, mantendo sigilo sobre o processo de purificação do gás e sublinhando vantagens como a ausência de faíscas e de fumaça, além da intensidade e estabilidade da chama.

Na segunda década do século XIX, o invento creditado a Murdoch

e a Wintzler foi progressivamente usado em ruas, hotéis e outras instalações, em Londres, originando uma rede de tubulação de gás. Vários artigos sobre o assunto já apareciam em revistas quando Fredrick Accum (1769-1838), que trabalhava na área da química publicou um texto detalhado acerca do tema, Um tratado prático sobre a luz a gás [A practical treatise on gas-light (1815)]. Seu trabalho inclui ilustrações sobre lâmpadas de diversos tipos e

tamanhos (Figura 106), além de gasômetros [instalações para produzir e distribuir luz a gás, em média escala, para estabelecimentos comerciais e industriais]. A regularização do seu uso originou diferentes opiniões, e dentre as vantagens na comparação com a luz a óleo apareceram o maior brilho (cerca de 10 vezes mais) e mais estabilidade da chama, o que gerava uma luz suave e difusa, além da ausência (ou redução) de odor e fuligem.

Há controvérsias sobre autoria e datas nos relatos e documentos

que tratam das primeiras incursões na pesquisa com luz a gás. Os nomes de Lebon e Wintzler parecem por vezes grafados como Winsor e Le Bon, sem qualquer advertência. A tradução para a língua portuguesa de parte do capítulo quatro, A história da iluminação (The history of illumination), do livro de Jean Rosenthal e Lael Wertenbaker, A magia da luz (The magic of light), publicada na revista Cadernos de teatro n. 102, de 1984, informa que a primeira aplicação do gás no teatro se deu em 1806, sob a responsabilidade de F. A. Wintzler, a quem a tradução se refere como iluminador, enquanto os autores dizem apenas se tratar de um “alemão”. (ROSENTHAL; WERTENBAKER, 1972)

Parece pouco recomendável aplicar o título de iluminador para

caracterizar a função de um profissional específico, naquele momento do teatro. Além disso, é possível questionar a correção

dessa data, 1806. Outras fontes, como Bill Williams, 7 indicam 1816 como o ano no qual se registra a instalação no Chestnut Theatre, na Filadélfia, do primeiro sistema de luz a gás no teatro. Bergman (1977), por sua vez, consultando os jornais londrinos The Examiner e The Times de setembro de 1817 diz que em agosto do mesmo ano o palco do Lyceum Theatre recebeu luz a gás em 1817 e, um mês depois, o Theatre Drury Lane, também em Londres, já operava com o mesmo tipo de sistema. De qualquer maneira, parece consenso que ao final da segunda década do século XIX a luz a gás já havia introduzido significativas mudanças nos espetáculos.

A despeito do confirmado risco de incêndio como a maior

desvantagem da luz a gás, sua aplicação repercutiu de modo crescente no teatro, sendo documentada em textos como a criteriosa descrição publicada no Theater-Lexicon, de Leipzig, em 1841 e escrita por Ph. J. Dürringer e H. Barthels, que inclui ponderações importantes:

 

De modo geral, a luz a gás na sua forma mais pura produz uma luz

branca, algo amarelo-avermelhada (quanto mais puro o gás, mais branca

a luz) que, comparada à luz de uma boa lâmpada Argand difere em brilho

e cor, assim como essa lâmpada é diferente [apresenta melhor resultado]

de uma vela de boa qualidade, […].8 (DÜRRINGER; BARTHELS apud

BERGMAN, 1977, p. 259, tradução nossa)

 

Ficava evidente um incremento na temperatura de cor, que mais

tarde seria progressivamente ampliado com a luz elétrica, pela aplicação da fluorescência e, recentemente, do LED. Outra vantagem relacionada ao uso do gás refere-se à geração da chama propriamente dita que dispensava o cuidado com resíduos, como no caso das velas; além disso, a comparação com a lâmpada a óleo mostrava grande diferença, pois, nesta última a carbonização do pavio provocava mais odor e fumaça.