A luz na gênese do espetáculo
A cena sob controle
No teatro, o uso de sistemas mecânicos para transportar o fluxo
de gás pelo emaranhado de tubos até os bicos queimadores [de formas e tamanhos diversos] definia a qualidade da chama, permitindo controle da intensidade, mudanças suaves e maior precisão. Isso incluía cores aplicadas a diferentes áreas da cena, através de uma central de operações [que Bergman chama gas-table ou, mesa de gás]. Tais aspectos, em conjunto com novas estruturas de sustentação para instrumentos de luz como varas acima do palco, determinaram o surgimento dos novos sistemas para aplicação da luz no teatro, cuja flexibilidade contribuiu para o amadurecimento das relações técnico-estéticas.
A cena sob controle
De acordo com Bergman (1977), Richard Wagner (1813-1883)
teria comentado um incidente que se transformaria num importante aspecto da sua obra: na abertura do Festspielhaus de 1876, no Bayreuth (Alemanha), por falta de revisão final do ajuste definido para o sistema de iluminação a gás, a plateia ficou praticamente às escuras do início do espetáculo, chocando os espectadores. Ainda segundo Bergman, Wagner corrigiu o equívoco, nos espetáculos seguintes, mas fez o público mergulhar numa considerável penumbra; o evento teria contribuído para a difusão dessa prática na maioria dos teatros da Alemanha, e deixado um importante legado que deveria servir como aprendizado, ainda hoje. Constatou-se que, mesmo com o avanço tecnológico, o iluminador não é uma de entidade infalível; se os envolvidos em um espetáculo dependem de muita experimentação e ensaios parece incongruência solicitar que o “iluminador” chegue alguns dias antes da estreia – por vezes, nem tanto – e resolva a luz, como num passe de mágica ou ato místico: faça-se a luz!
Mesmo com rumores acerca dos espetáculos do ator inglês
Charles Kean (1811-1868), no Princess Theatre, em Londres, nos quais a plateia teria permanecido praticamente às escuras durante os espetáculos, muitos dizem que Wagner teria encaminhado o controle deliberado da luz na plateia. Era impossível, no entanto, mesmo na era do gás, extinguir completamente a luz – na plateia ou no palco – uma vez que seria necessário voltar a acionar os instrumentos de iluminação, fossem velas, lamparinas a óleo ou bico de gás. Aí residiria o principal avanço surgido no final do século XIX, quando vários pesquisadores estudaram a produção da luz elétrica.
Na verdade, experimentos com a eletricidade têm sua história
documentada desde a Antiguidade, quando os gregos,
provavelmente na cidade de Magnésia,9 no século VI a.C., tiveram sua curiosidade despertada por uma pedra que atraía pedaços de ferro, denominando-a magneto. Tales de Mileto (624/625-556/558 a.C.), sábio considerado pioneiro da filosofia ocidental, teria desenvolvido experimentos com outras substâncias, entre elas o âmbar – ou elektron, em grego; electrum, em latim – uma substância vítrea, que teria originado o termo eletricidade e suas derivações.
No seu diálogo Ion, entre Sócrates e o rapsodo cujo nome
originou o título da obra, Platão menciona o magneto para tratar da inspiração poética:
SÓCRATES: Compreendo, Ion: e explicarei o que imagino seja a razão
para isso. Essa habilidade que você detém de falar tão bem, sobre
Homero, não é uma arte, mas, como eu disse, uma inspiração; há uma
divindade que te move, como aquela contida na pedra que Eurípedes
chama magneto, mas que é conhecida como pedra de Heraclea. Ela não
apenas atrai anéis de ferro, mas, também, dá a eles um poder similar de
atrair outros anéis; e, às vezes, você pode ver vários pedaços de ferro,
suspensos sobre outros, de modo que formam uma longa corrente: e
todos eles têm seu poder de suspensão derivado da pedra original.10
(PLATO, 2008, p. 9, tradução nossa)
A despeito dos inúmeros comentários acerca dessa relação entre
as capacidades magnéticas das substâncias e a inspiração que provoca os poetas, localizada além da instância das habilidades, impressiona em Platão a qualidade visual da exegese. Ele estabelece uma analogia entre a mencionada inspiração poética e uma corrente de anéis unidos por algum tipo de energia que se desloca entre eles. O termo eletricidade só apareceu muito mais tarde, quando, no século XVII, William Gilbert (1540-1603), físico inglês e médico da Rainha Elisabeth I, chamou “elétricas” todas as substâncias que atraíam outras, depois de submetidas à fricção. Diversas outras experiências relacionam a história da humanidade à propriedade elétrica das substâncias.
Várias pesquisas foram empreendidas nos séculos que se
seguiram, estudando-se as cargas elétricas, as possibilidades de carregar corpos com eletricidade e de conduzir o fluido elétrico. Os estudos levaram os pesquisadores a concluir que todo corpo tem certa quantidade do fluido elétrico, mas nem todo corpo se comporta como condutor, e não atrai, portanto, nenhum outro. No processo de fricção de um corpo, determinada quantidade de fluido elétrico é perdida, ou passa por ele, resultando numa quantidade maior ou menor do que aquela presente no corpo “em repouso”, produzindo carga positiva ou negativa. Objetos com carga positiva tendem a se repelir, assim como aqueles que têm carga negativa repelem os da mesma natureza.
No século XIX, entretanto, as investigações alcançaram um ponto
que introduziria resultados inovadores no teatro. Em 1809, o químico inglês Humphry Davy (1778-1829) apresentou aquele que ficou conhecido como o primeiro artefato concebido para produzir luz artificialmente com a aplicação da eletricidade, conectando dois fios em uma bateria e ligando uma tira de carvão vegetal entre as outras extremidades dos fios. Como resultado da carga, o carvão brilhava, originando a primeira lâmpada de arco elétrico. Desde o surgimento desse aparato muitas outras pesquisas foram encaminhadas em busca de uma “lâmpada elétrica”, o que torna difícil mencionar isoladamente um inventor.
A lâmpada incandescente que se afirmaria no fim do século XIX
como fonte de luz artificial, de eficiência sem concorrente naquele momento, foi incrementada em um artefato constituído de filamento,
bulbo de vidro, base de contato, gás e lacre (Figura 107). Vários pesquisadores contribuíram para o desenvolvimento de cada um desses componentes, o que originou demandas variadas pela exclusividade ou autoria da invenção. Nos Estados Unidos da América, nomes como os de Moses Gerrish Farmer (1820-1893), William Sawyer (?), Albon Man (?) e Hiram Stevens Maxim (1840-1916), assim como o de George Lane-Fox (?) na Inglaterra, estiveram ligados a iniciativas que buscavam uma lâmpada incandescente de filamento durável, o que gerou muitas disputas. Uma das mais notáveis controvérsias envolveu Thomas Edison (1847-1931) e Joseph Wilson Swan (1828-1914), (1828-1914), que depois se associaram fundindo suas empresas na Edison and Swan United Electric Light Company Limited, em 1883.