Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 100 de 107

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Trem-Bala

Guardar

Guarda é o nome de um livro e de um poema escritos por Antonio Cícero, que também já compôs muitas músicas cantadas por sua irmã, Marina Lima.

“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la./Em cofre não se guarda coisa alguma./Em cofre perde-se a coisa à vista./Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado/...”

Lembrei destes versos quando recebi pela Internet, outro dia, um texto anônimo, desses que fazem parte daquelas insuportáveis correntes que trazem recados como: “Se você não repassar esse texto para 10 pessoas, não venha se queixar que seu casamento fracassou, seu negócio faliu e seu avião entrou em pane”. Nunca repassei nada, acho corrente uma chatice, mas o texto em questão vale a pena ser mencionado, e o faço para bem mais de 10 pessoas, o que talvez me garanta vida eterna.

A história é piegas: um cara perde sua jovem esposa. Num baú, encontra um xale que ela havia comprado em Nova York há oito anos e que nunca havia usado, aguardando uma ocasião especial. Ele, então, cede o xale à cunhada, que está encarregada de vestir a irmã para o funeral. A ocasião, finalmente, havia chegado.

Mórbido, porém ilustrativo. O que é uma ocasião especial? Há pessoas que compram uma roupa e só a usam um ano depois, quando já está fora de moda. Porcelanas e cristais reluzem no escuro dos armários, esperando serem herdados, quando então trocarão de móvel. Perfumes viram vinagre, à espera de uma recepção. Jóias imploram para pegar um ar. Lingeries ficam puídas à espera de uma segunda lua-de-mel. Poupanças desvalorizam no banco aguardando uma emergência. Poucas coisas duram para sempre, e o ser humano não é uma delas. Por que não podemos dar à rotina um tratamento vip?

“Algum dia” ou “um dia desses” são datas abstratas demais para constarem de sua agenda. Vá hoje mesmo ao supermercado com sua camisa preferida.

Abra um champanhe por ter conseguido vaga para estacionar bem em frente ao consultório do seu médico. Use uma jóia discreta e bonita para se encontrar com uma amiga de infância. Desaloje as porcelanas do armário para experimentar seu primeiro fettuccine al pesto. Em vez de tirar o pó dos livros, leia-os. Vista uma camisola de renda preta, aplique duas gotas de Chanel número 5 e dane-se que você está sozinha. Trate bem de quem você mais ama.

Todo dia é uma ocasião especial. Guarde apenas o que tem que ser guardado: lembranças, sorrisos, poemas, cheiros, saudades, momentos.

“Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela...” Guarda-se o que há dentro de nós. O resto é para ser usufruído.

Julho de 1999