Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 13 de 107

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Trem-Bala

Fim de ano. Você tirou de circulação…

PROVAÇÃO

Fim de ano. Você tirou de circulação todos os cashmeres e blusões de gola rulê, e o que sobrou no seu guarda-roupa? Nada. Você está sem um trapo para vestir. Ano passado decretaram que a moda era verde limão e cor-de-laranja e você ficou completamente empenhada: tem que voltar correndo para o azul-marinho, o marfim e o preto. A solução, amiga, é esquecer o Gustavo Franco e o Pedro Malan e ir às compras.

Tem gente que acha um programão: tempo livre + saldo no banco = shopping center. Matemática elementar. Eu, nesse aspecto, remo contra a maré: odeio comprar roupa. Se pudesse, materializava tudo o que me agrada nas revistas de moda com um estalar de dedos. Não que eu não goste de roupa nova: sou mulher como você. O problema é experimentar.

Você se apaixona por um vestido na vitrine e resolve provar. Se você estiver de botas, jeans e dois pulôveres, mais um coque que levou vinte minutos para ficar pronto, esqueça. O vestido pode até parecer um Versace: não vai compensar ficar isolada numa solitária de um metro quadrado, com um banquinho minúsculo e se descabelando para conseguir fechar o zíper sozinha. O espelho sempre fica perto demais. A luz é exagerada: ao sair de casa você não tinha essa celulite toda. A etiqueta do vestido está atrapalhando, mas você não pode tirá-la enquanto não disser as palavras mágicas que a vendedora anseia ouvir: “vou levar”.

Você não vai levar. Custa R$ 470. E ao recolocar suas roupas, surpresa: elas envelheceram vinte anos. Você devia estar dopada quando saiu de casa com esses muafos.

Mais trágico que isso? Tem. Experimentar biquíni. Como ninguém compra traje de banho em final da temporada, a falta de bronzeado destruirá sua auto-estima: você vai parecer uma finlandesa. Uma finlandesa gorda. Você tentará se imaginar em Acapulco, em Bali, em Bombinhas, mas não surtirá efeito. A verdade é que você está seminua em uma loja lotada, cuja cortina não cobre toda a extensão do provador e ainda por cima morrendo de culpa porque não podia experimentar o biquíni sem calcinha, e você experimentou. Uma finlandesa gorda e mal-educada.

Sapato é mais fácil? Depende. Se você saiu de casa preparada para a empreitada, tudo bem, mas se foi movida pela impetuosidade e não estiver com meias limpas e unhas feitas, merece passar o resto dos seus dias descalça.

Só tem um jeito: em vez de ir às compras, faça as compras virem até você. Impossível que você não tenha uma amiga sacoleira. Acione-a! Diga por telefone tudo o que deseja e não fique em casa para esperá-la. Ela deixará a sacola e voltará no outro dia para buscar. Assim você terá a noite todinha para experimentar tudo com calma, no aconchego do seu quarto e com a cumplicidade daquele espelho amigo que lhe deixa dois quilos mais magra.

Você não tem uma amiga sacoleira? Aqui se faz, aqui se paga.

Dezembro de 1997