Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 76 de 107

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Trem-Bala

Paquera Pela Internet

Declarei mais de uma vez: acho a Internet revolucionária como prestadora de informação e de serviços, mas sempre fui reticente a respeito do seu valor como prestadora de amor. Relações virtuais me pareciam duvidosas, um baile de máscaras, onde ninguém se revelava por inteiro. Os chats, eu tinha certeza, eram a forma mais imbecilizada de comunicação entre seres vivos, e a única coisa que me agradava era a facilidade de se corresponder com colegas e amigos já conhecidos, ainda que sentisse uma nostalgia incurável de cartas com selos lambidos, envelopes amassados e conteúdos secretos.

Delete tudo o que foi escrito acima: mudei de idéia. Conversando com amigas num almoço, dia desses, fiquei sabendo de vários casos de romances iniciados via e-mail. Eu mesma tinha um caso pra contar: dei um livro de presente para um amigo que, ao término da leitura, mandou um e-mail para a autora, conhecida minha. Ela achou o texto dele bacana e me pediu referências. Dei as melhores, sem mentir nem aumentar as qualidades. Ele também me pediu referências extracurriculares da moça. Recebeu as que eu tinha, que eram poucas mas ótimas. Então eles engataram uma correspondência intelecto-libidinosa e o resultado é que, semanas depois, ao cruzarem os olhares ao vivo, rolou. Até o momento em que escrevo, o namoro segue inabalável e se eu não for madrinha, corto relações com os dois.

Por que está dando certo iniciar um romance através da Internet? Talvez seja porque do jeito convencional está dando errado. Imagine que você (homem ou mulher) está num bar quando se aproxima alguém. Por que esse alguém escolheu logo você? Não foi pelas suas idéias, que ainda estão invisíveis. Foi pelos seus olhos, sua jaqueta, pela aliança no dedo esquerdo que você não tem. O papo vai ser cauteloso, meio bobo, como qualquer primeiro contato. Você pode ter um acesso de espirro enquanto fala de como é seguro, o outro pode mexer o gelo do copo com o dedo e depois lamber, enquanto conta que foi educado na Suíça, e uma bela história de amor pode morrer antes que o bolinho de bacalhau esfrie.

Pela Internet o físico não conta e o que é dito não entra em conflito com as atitudes. Só o que se enxerga são as idéias, a cultura, o humor e o interesse em seguir teclando. Dá para enganar o outro? Na primeira semana, dá, mas na segunda as máscaras caem, você descobre se as almas têm parentesco e a mágica pode acontecer: você se apaixonar sem saber a cor dos olhos dele ou qual é a medida da cintura dela. Não é um começo mais confiável?

Especulações. O que importa é que esses amores estão vingando e eu mudei de idéia, e ambos me parecem uma vitória.

Fevereiro de 1999