Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 12 de 107

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Trem-Bala

Madrugada É um Lugar que Não Existe

Noite. Quem não ama essa palavra? Se você pudesse me ver agora, iria rir do meu dedo indicador apontado para cima.

Néon, paetês, consumação mínima, tudo isso me dá urticária. Não que eu seja uma eremita incorrigível. Um restaurante, um espetáculo, um cinema, adoro. Uma vez por semana, civilizadamente. E voltando antes da meia-noite, para que eu não dê o vexame que tantos amigos meus já testemunharam: depois de uma certa hora, apago onde estiver, saio do ar.

É como se caísse a chave-geral: fico com aquele sorriso de quem está chapado e não registro mais o que acontece a minha volta. Uma espécie de Cinderela, só que quem vira abóbora sou eu.

Vida noturna é para profissionais. Eu fiz esforços sobre-humanos na adolescência, quando as festas começavam, como hoje, muito depois das doze badaladas. Ninguém pode calcular o meu sofrimento nas noites de sábado. Fingia que achava aquilo tudo normal, mas por dentro eu não me conformava: minha idéia de diversão era bem diferente. Me sentia uma marciana vestida de lurex, os bocejos estragando a maquiagem. Quando fui informada de que nos países civilizados jantava-se entre sete e oito, e que em Londres os pubs fechavam às 11, salivei, suspirei e entendi: caí aqui por engano.

Em toda a minha vida, posso contar nos dedos as vezes em que fui deitar com o sol alto. Hoje assumo sem medo de ser deserdada pela turma: adoro o dia, acho as manhãs superprodutivas. As tardes, para mim, são excitantes como a noite é para os outros, e a minha noite é um fiasco: hora de desacelerar, tomar um vinho em casa, passar os olhos numa novela e depois ir para a cama cometer loucuras, como dormir. Madrugada? É um lugar que não existe.

Contudo, sou poeta e sou mãe, duas atividades que giram em torno da hora do espanto. Fazer versos e canções de ninar, só rimando com as estrelas.

Que jeito? Com a poesia, já me entendi: minto descaradamente. Quem me lê jura que passo as noites nos bares do Bom Fim bebendo cerveja no gargalo.

Mas como explicar para um bebê que mamãe precisa de oito horas de sono?

Não encontrando outra solução, adotei o sonambulismo como tática. Às 3 da manhã costumo fazer tudo o que faço acordada: esquento leite, arrumo cobertas, trago copos d’água, mas de olhos fechados. Não acendo luzes nem tateio as paredes, sei o lugar de tudo. Se madrugada é um lugar que não existe, mamãe é uma assombração.

Aqueles que me acham antipática talvez agora me vejam com olhos mais complacentes. Minha ausência em badalações não se trata de um problema de humor, mas de relógio biológico. Nunca consegui acertar os ponteiros com a noite. O escuro não é meu aliado. Fiat lux! Agora, sim, você está me vendo.

Novembro de 1997