Trem-Bala
Eram 19h28min. O filme começava às 19h:30min.…
PRÓXIMA PARADA, WONDERLAND
Eram 19h28min. O filme começava às 19h:30min. Devo ter passado pelo bilheteiro meio apressada, porque ele me disse: “Ih, vai ser difícil encontrar lugar para sentar”. Entendi a ironia, e antes de entrar na sala, sabia que iria encontrar a platéia praticamente vazia. Bingo.
Estávamos eu e mais três solitários, em plena sexta-feira. Duas horas depois, fui a primeira a sair do cinema. O mesmo bilheteiro me disse: “Esse filme que estreou hoje é muito fraquinho, tu não achas’?” Íntimos.
Respondi: eu gostei.
Compreendo a desilusão do bilheteiro. Quem gosta de efeitos especiais e muitas cenas de sexo e violência pega no sono diante de Próxima parada, Wonderland, filme que estreou em 29 de janeiro. Fraquinho, pelo ponto de vista dele, porque a trilha é bossa-nova do começo ao fim, ainda que seja uma produção americana e a história se passe em Boston. Fraquinho porque, no filme, é inverno, e a atriz principal não deixa à mostra nem o pescoço. Fraquinho porque o filme trata de amor, destino e solidão.
Blagh! Fraquinho porque os nomes dos protagonistas são esquecíveis. e o nome do diretor tampouco se ouviu falar. Fraquinho porque é poético, realista, engraçado, simples. Fraquinho porque, caramba, faz a gente sair leve do cinema. Comparado com Armageddon, não dá nem pra largada.
Quanto mais eu assisto à televisão, mais esse tipo de filme me ganha.
Comédia romântica, despretensiosa, que nos faz esquecer por alguns instantes as duas Sheilas do Tchan, se o Clementino explodiu o shopping, quem a Eliana está namorando, quem matou a deputada Ceci Cunha, se Padre Marcelo vai desfilar no Sambódromo, e com que roupa. Isso tudo é real?
Então quero a alienação de um filme em que a gente possa lembrar que certos sentimentos não merecem estardalhaço.
Saio em defesa de produções opacas como saí em defesa, anos atrás, de Antes do amanhecer, que conta a história de um casal que se conhece num trem e passam juntos 24 horas perambulando por Viena. É a mesma coisa: filmes sem suspense, ação, sustos, naufrágios. Quantas vezes você esteve num navio afundando? Quantas vezes sofreu um ataque alienígena, foi vítima de um maníaco depressivo, descobriu ter poderes sobrenaturais?
Toda fantasia é bem-vinda, mas até ela enjoa. A realidade passou a ser o meu luxo de consumo. O bilheteiro tem razão: talvez o filme Próxima parada, Wonderland seja fraquinho mesmo, e a vida é que esteja pesada demais.
Fevereiro de 1999