Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 103 de 107

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Trem-Bala

Dizem que já não há vagas nos…

FELIZ VOCÊ NOVO

Dizem que já não há vagas nos hotéis de Paris, Nova York, Roma, Jerusalém e Rio de Janeiro, os roteiros mais procurados para se passar a meia-noite de 31 de dezembro de 1999, quando todos nós, mesmo aqueles que estiverem numa periferia ou numa aldeia indígena, adentraremos no terceiro milênio. Recado aos preciosistas: sei que o milênio só começa pra valer na virada para o ano 2001, mas é impossível ser matematicamente correto diante de um número cabalístico como o 2000. Permitam a licença poética.

Voltando ao assunto: vôos lotados, pacotes fechados, poupanças raspadas.

A mística que envolve a data está fazendo todo mundo correr atrás de cruzeiros marítimos, jantares suntuosos e queimas de fogos, tudo para comemorar o quê? Para alguns, a chegada de uma nova era, seja lá o que isso signifique na prática. Para outros, entre os quais me incluo, a transição de uma sexta-feira para um sábado onde não haverá chuva de meteoros nem anunciações divinas, apenas um porre coletivo e justificado pelo calendário.

Entre as pessoas que me cercam, o reveillon está sendo aguardado com moderação e planejado com simplicidade. Alguns irão para o interior, passar com a família. Outros irão para sítios de amigos. Ou para a beira de uma praia não muito distante, que dê para ir de carro. Há os que ficarão em casa, e uma infinidade de Marias, Joãos e Josés irão trabalhar.

Para que seja um evento tão especial quanto se espera, uma legião de garçons, guardas rodoviários, telefonistas, motoristas, médicos, camareiros, vigias, policiais, repórteres, músicos e ambulantes estarão defendendo o leitinho de suas crianças como outro dia qualquer. Nos primeiros minutos de janeiro, partos estarão na iminência de acontecer, defuntos estarão sendo chorados, casais estarão transando, mendigos estarão com fome, caixas eletrônicos serão assaltados, programas de tevê estarão sendo editados, alguém perderá seu cãozinho de estimação, malucos comemorarão surfando, muitas promessas serão pagas. No sábado, a maioria vai dormir até tarde. Alguns postos de gasolina irão abrir, assim como as lojas de conveniência, pra quem ficou sem cigarro ou precisa de um gole de refrigerante. Farmácias venderão digestivos. As sinaleiras estarão funcionando normalmente. Talvez chova, talvez faça um céu de brigadeiro. Alguns irão para a piscina, outros pedirão comida chinesa por telentrega. À noite, haverá mais uma edição do Jornal Nacional, e na manhã de domingo, dia 2, os padres estarão a postos na sacristia e os açougues abrirão para vender a carne do churrasco. Ano 2000. Se há algo para mudar, que seja dentro da gente, onde não é preciso fazer reserva nem gastar uma nota para virar uma pessoa melhor.

Julho de 1999