Trem-Bala
Convenções: Pros e Contras
Quem ainda não leu, deve ler correndo Pastoral Americana, de Philip Roth. Sou fã do autor desde seu excelente Complexo de Portnoy, mas o livro atual selou de vez minha idolatria.
Mal resumindo, é a história de uma família absolutamente convencional, que segue todas as boas regras de conduta, e mesmo assim gera uma filha terrorista. Como se explica? Ninguém explica, mas Roth especula: “As convenções servem como barreiras para as coisas improváveis, são restrições clássicas contra coisas impróprias, difíceis de avaliar e entender”.
Convenções. Não há nada que nos dê maior sensação de proteção. Fazer a coisa certa, nadar a favor da corrente, agir de acordo com o que esperam da gente. Fácil, tranqüilo, normal. Que seja normal, mas não me parece fácil nem tranqüilo.
Convenções não são leis. Lei é o que te proíbe de estacionar em local indevido, inibe tua violência, te protege de ser caluniado, te obriga a pagar imposto de renda. Concordando ou não, lei é para ser obedecida.
A lei é concreta, a convenção é abstrata. Convenção é noivar, é usar roupas que estão na moda, é ser simpático com todos os parentes.
Convenção é aquilo que ninguém obriga você a fazer, mas você faz para não se incomodar. Algum pecado nisso? Nenhum, desde que essa adaptação social se dê sem fanatismo.
Sempre considerei as convenções uma sinalização de conduta, não uma obrigatoriedade. Muitas delas sigo sem restrições, outras questiono, e há as que invento para consumo próprio. Se a pessoa não prejudica ninguém, não desrespeita a liberdade alheia, está livre para viver como quiser. Isso, pra mim, é que é fácil e tranqüilo. Se é normal, não sei.
Concordo com Roth quando ele diz que as convenções funcionam como uma barreira contra o improvável e o desconhecido. O que eu me pergunto é: pode-se fugir daquilo que cedo ou tarde irá nos interpelar? Desacredito que haja um ser humano sequer no planeta que não discorde de algo estabelecido, que não se interrogue profundamente a respeito de seus desejos, que não se sinta tentado a experimentar um outro comportamento, mesmo que considerado inadequado perante a sociedade. São as tais coisas difíceis de avaliar que as convenções impedem que se examine mais profundamente. E que, ao contrário de nos proteger, nos encarceram numa trajetória padrão, deixando-nos indefesos diante do desconhecido.
Liberdade de expressão, respeito às escolhas individuais e criatividade no estilo de vida. O que para muita gente, é um salto sem rede, pode ser a verdadeira proteção contra o inusitado da vida.
Maio de 1999