Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 42 de 107

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Trem-Bala

Palavras Mortas

Mario Vargas Llosa é peruano e um dos maiores escritores da América Latina. É, também, um político abortado. Tentou candidatar-se à presidência da República de seu país, em 1990, e perdeu no segundo turno para um alucinado Fujimori. O que ficou dessa experiência? As diversas funções que a palavra pode ter.

Reproduzo a seguir um trecho de uma entrevista dada por Vargas Llosa ao jornalista argentino Jorge Halperín e que foi publicada no livro Pensar el mundo, junto a diversas outras entrevistas com personalidades marcantes deste final de século. Halperín perguntou a Llosa o que faz um escritor com as palavras quando as deve usar como político. A resposta: “Para um escritor, a linguagem é seu bem mais precioso. É uma relação que envolve enorme cuidado, respeito, quase uma reverência religiosa.

Ela é trabalhada de maneira muito pessoal porque é através dela que criamos nossa identidade como escritor. Já para o político, a linguagem é apenas um instrumento. Como ele quer chegar ao maior número de pessoas, ele a simplifica e a repete. Por isso, em política, é irresistível o uso de estereótipos, clichês, estribilhos, tudo o que em literatura significa palavra morta”.

Minha gente! Brasileiros e brasileiras! Vote em quem vai dar emprego!

Vote em quem vai dar educação! Vote em quem vai transformar esse país!

Vote por um novo Brasil!

Você ouve essa cantilena desde que nasceu. Palavras ao vento, refrões massacrantes, frases sem conteúdo, sem idéias, sem soluções. Será que a população estranharia um discurso diferente, outras palavras? Confundiria com literatura? Tenho uma curiosidade danada de saber como se sairia um candidato caso nos oferecesse outros verbos, outros predicados, menos slogans. Imagine ele dizendo o que vai fazer, por que vai fazer e, principalmente, como e com que grana. Não seria um oásis no deserto? Não seria preciso rimar nem abusar de sintaxes, apenas dar às palavras mais utilidade.

Iniciou-se ontem mais uma maratona de propaganda eleitoral. Os candidatos são os mesmos, a boa intenção é a mesma. O que poderia despertar nosso interesse por essas eleições? Palavras vivas.

Agosto de 1998

MANÍACAS PELA FAMA

Todas as vítimas de Francisco de Assis Pereira, o maníaco do Parque do Estado, eram jovens e tinham cabelos encaracolados. Outra coisa as caracterizava: todas tinham o miolo mole, a ponto de se deixar levar por um estranho mata adentro em busca de um sucesso instantâneo.

Lamento a morte cruel e precoce dessas meninas, e Francisco tem que ficar enjaulado para sempre, pois ele não é apenas um maníaco. Francisco é o Assassino do Parque, o Tarado do Parque, o Psicopata do Parque. Maníacas eram as vítimas, obcecadas por tornarem-se modelos.

O golpe de dizer-se fotógrafo em busca de talentos não é novo, e muitas vezes não é golpe. A modelo brasileira Gianne Albertoni foi descoberta quando passeava no Parque do Ibirapuera, também em São Paulo. Naomi Campbell foi caçada por um olheiro na saída do colégio, em Londres.

Claudia Schiffer estava dançando numa boate em Frankfurt quando alguém percebeu sua semelhança com Brigitte Bardot. Todos esses casos costumam ser amplamente divulgados pela imprensa especializada e dão a impressão de que tornar -se uma top model é só uma questão de estar no lugar certo na hora certa. As garotas que foram atraídas por Francisco não levaram em consideração o fato de elas não serem deusas do Olimpo e de ele não portar nenhuma documentação que comprovasse sua suposta atividade profissional. Foram vítimas, antes de mais nada, de uma tremenda ilusão.

Se alguém as chamasse para fazerem um teste de datilógrafa ou para um estágio numa indústria de salsichas, a maioria iria perguntar o nome da empresa, o salário, a carga horária, e ainda assim desconfiaria dessa oferta caída dos céus em tempo de tanta demanda. Mas a possibilidade do estrelato cega e emburrece. As garotas tornam-se incapazes de acionar o alarme interno, pois acreditam que o final da história compensará o risco.

Casos como o de Shirley Mallmann, ex-funcionária de uma fábrica do interior, ou o da garota que recentemente foi pinçada do Morro da Cruz para um desfile promovido pela Ford Models são contos de fada que deram certo, mas as chances de isso acontecer com uma balconista de rodoviária é 0,001%. Cair na real é duro, mas é isso que temos que aprender dentro de casa. Sucesso é ter um emprego, uma vida tranqüila, meia-dúzia de amigos fiéis, um pouco de lazer, algum estudo e a cabeça no lugar.

Sonhar é bom e saudável, ler revistas é uma delícia, imaginar cenas de novela acontecendo conosco é permitido e indolor, mas nada nos deixa mais vulneráveis do que cruzar a fronteira do imaginário. Do outro lado, ninguém sabe o que há.

Agosto de 1998