Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 19 de 107

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Trem-Bala

A Avalanche Foi Sem Querer

Fiquei sensibilizada com o destino trágico dos três alpinistas brasileiros que não conseguiram chegar ao cume do Aconcágua. Muita coisa mexe conosco quando testemunhamos uma fatalidade dessas. O fato de um deles, Othon Leonardos, ter mantido contato até o fim, mandando mensagens de despedida para os parentes e pedindo que tomassem um vinho por ele, nos deixa ainda mais comovidos. Nós, com nossos problemas domésticos, nossas dores na coluna, nossas reuniões de trabalho, nossa pressa e nossas queixas, ficamos pequenos diante de um rapaz de 23 anos pendurado por uma corda a 6.000 metros de altitude e a 20 graus abaixo de zero, resignado com o destino: “Diz pro pai que a avalanche foi sem querer”.

Talvez não seja piedade o que sentimos por eles, mas inveja. Esses caras tinham uma paixão — escalar montanhas — e por ela dedicaram a vida. Não faziam isso por dinheiro, status ou benemerência: mesmo que chegassem ao topo, não iriam ser convidados para uma temporada na ilha de Caras. Já tinham realizado proezas sensacionais e ninguém os conhecia. Mesmo Mozart Catão, citado três vezes pelo Guiness, era um ilustre anônimo nacional. O lance deles era outro.

Viraram heróis porque levaram sua liberdade às últimas conseqüências, fazendo o que amavam e assumindo os riscos de viver além das convenções.

A aventura deles era mais emocionante que a nossa. Nossa aventura é atravessar a avenida Carlos Gomes sem ser atropelada, fazer um rancho sem estourar o orçamento, chegar à noite em casa sem ser assaltada, atravessar uma enchente sem ser engolida pelas águas, enfrentar filas de banco, conseguir leito num hospital. Nossas avalanches diárias têm motivo: descaso, relaxamento, falta de infra-estrutura, contingências sociais. Nossa loucura não é romântica e nosso estresse não acontece num cenário de Walt Disney. Nossos desafios são tão difíceis quanto os deles, mas escolhemos escalar picos urbanos. Não tem a mesma graça.

Cada um escolhe o topo a que quer chegar. Nossas metas também são altas, e quando as alcançamos, inventamos outras, como uma maneira de não morrer em vida. Nosso Aconcágua pode ser editar um livro, ter um filho, virar dono do próprio negócio, aprender a tocar violino, comprar uma casa. Nossa escalada também exige preparo físico e psicológico. A diferença entre nós e esses alpinistas é que, quando ficamos sem condições para seguir adiante, a primeira coisa que pensamos é que a avalanche é culpa dos outros. Fica a lição de Othon Leonardos, que não perdeu o humor e reconheceu a imobilidade como parte da aventura.

Fevereiro de 1998