Trem-Bala
A imprensa tem se destacado no papel…
RASGAÇÃO DE SEDA
A imprensa tem se destacado no papel de crítica da sociedade, mas às vezes esquece que elogio também é notícia.
Não falo por mim, que sempre fui bem tratada. Falo, olhe que ousadia, por Caetano Veloso. Ele canta bem, compõe bem, escreve bem, fala bem, pensa bem e ainda por cima é charmoso. Caetano segue sendo o que há de mais moderno na MPB, mesmo estando na estrada há tempo suficiente para se aposentar e passar o resto da vida tomando água-de-coco. Em vez disso, grava gente nova e gente esquecida, faz trilhas para filmes e apóia a cultura nacional. Imperdoável.
Caetano sabe muito bem se defender, e quem quiser saber o que ele pensa a respeito do nosso vício de falar mal, não pode perder a entrevista que ele deu ao programa Revista Europa, que vai ao ar dia 13 de junho pelo canal GNT. Uma palhinha: “O jornalista brasileiro tem vergonha de escrever um elogio porque acha que vai perder o emprego e a respeitabilidade”.
A revolta de Caetano deve ter algo a ver com o fato de ter recebido um malho gratuito numa matéria que a revista Veja publicou semana passada, a respeito de sua performance para promover o filme Orfecc. Acrescento apenas: a carência de elogios não é prerrogativa da imprensa. A escassez atinge todos os setores.
Todo mundo mete o pau em tudo, sem atenuar e muito menos sugerir soluções para os problemas apontados. Alguém está rico? Roubou. Alguém está mais bonito? Plástica. Alguém está fazendo sucesso? Teste do sofá. Alguém está mal? Óóóóóóó, que peninha.
Para muita gente, elogiar é uma espécie de servilismo. Pior: encaram o elogiado como um concorrente, quando na verdade as pessoas que têm seu trabalho reconhecido abrem mercado. Quanto mais promovermos os bons escritores, os bons atores, as boas dançarinas, mais pessoas comprarão livros e irão ao teatro, impulsionando a cultura. Mas nosso estratosférico nível de cobrança faz com que um elogio entusiasmado, sem reservas, só aconteça se o elogiado for assim um Picasso, um Fellini, uma Fernanda Montenegro, ou, como lembra Caetano na entrevista, alguém totalmente desconhecido, alternativo e genial, que nunca ninguém ouviu falar. Aí derretem-se.
Afora os artistas, são bem-vindos elogios diários para donas-de-casa, empregadas, médicos, cabeleireiros, professores, maridos, esposas e afins. Outro dia, recebi flores de uma amiga com quem havia jantado na noite anterior em seu simpático apartamento, onde foi servida uma massa dos deuses e um papo não menos gostoso. Tem algo errado aí. Eu deveria ter mandado flores pra ela, mas recebi lírios na manhã seguinte porque disse pessoalmente a ela o que estou dizendo pra você, sobre o apartamento, a comida e o papo. Recebi flores por ter elogiado. É de fazer pensar.
Maio de 1999