Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 60 de 107

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Trem-Bala

Não Dançando Conforme a Música

Outro dia comentei o resultado de um congresso realizado em Madri, em que foi concluído que a maioria das pessoas só é feliz depois dos 35 anos. Especulei que a razão disso talvez fosse o fato de, nessa idade, já termos cumprido as missões impostas no berço (profissão, casamento e filhos) e que a partir daí estaríamos livres para escrever nossa própria história.

Volto ao assunto depois de ver Dança Comigo?, um filme comovente que retrata um pouco essa situação. É a história de um homem de 40 anos, casado, com uma filha e cuja rotina resume-se a acordar às cinco e meia da manhã, pegar o metrô, trabalhar num emprego burocrático para pagar o financiamento da casa recém-adquirida e voltar à noite para o convívio da família, cansado e sem motivação.

Milhares de homens e mulheres no mundo todo vivem essa rotina acachapante, sentindo-se presos a um projeto de vida que deu certo, mas que segue deixando a sensação de inacabado. O que fazer com o resto de vida que nos sobra? Depois da missão cumprida, é hora de escapar para dentro de si mesmo e descobrir aquilo que aguarda ansiosamente ser transgredido.

O filme se passa no Japão, um país com uma cultura diferente da ocidental. Lá os casais não costumam manifestar afeto em público, e isso inclui dançar juntos. Não pega bem. Pois o personagem do filme, enclausurado no seu cotidiano claustrofóbico, resolve ter aulas de dança escondido da família, atraído por uma bela professora que viu de relance e pela necessidade de dar um sentido à sua vida padronizada. O filme não tem nenhum apelo erótico, nem violência, nem Mel Gibson ou Winona Ryder.

É de uma sensibilidade que dispensa dublês e trilhas compostas por Celine Dion. Trata-se da história de um homem iniciando um caso de amor consigo mesmo.

Quando falamos em transgressão, nos vêm à cabeça coisas ilícitas, como usar drogas ou estacionar em local proibido. Transgredir não significa apenas violar a lei, mas ultrapassar as barreiras que nós mesmos nos impusemos. Para o personagem do filme foi aprender a dançar. Para você pode ser aprender a tocar violoncelo depois de se aposentar, passar seis meses purificando-se na Índia, ter aulas de pintura, adotar uma creche, praticar ioga, voar de planador ou morar sozinho depois de uma vida inteira compartilhada. Qualquer coisa que oportunize uma olhada para dentro, que atenda a um impulso espontâneo, que obedeça a algum desejo tão submerso que nem você acreditava que ainda respirasse.

Casamento, filhos e casa própria é uma realização legítima e importante na vida de todo mundo, e pode até ser uma senhora transgressão para quem passou a primeira metade da vida na estrada, dormindo cada noite num lugar e com uma namorada em cada porto. O segredo está em não obrigar-se a cumprir um pacto que já prescreveu, em não manter-se sempre igual apenas por respeito a uma biografia que foi previamente escrita. Ao menos uma vez é preciso sentir a magia e a doçura de um passo de dança executado fora do compasso.

Novembro de 1998