Trem-Bala
Liberdade Vigiada
Nove anos sem poder comprar pão na esquina. Nove anos sem dar uma caminhada no parque. Nove anos sem ir à praia. Nove anos sem deixar o carro num lava-rápido. Sim, é um presidiário, mas não um criminoso.
Estou falando de alguém que nunca foi para a cadeia, mas que passou os últimos nove anos confinado. Salman Rushdie, o próprio. O homem mais perseguido do mundo.
Para refrescar a memória: em 1989, o ainda vivo aiotalá Khomeini emitiu uma condenação de morte contra o escritor Salman Rushdie por considerar que seu livro, Os Versos Satânicos, blasfemava contra o islamismo, e estipulou uma recompensa para quem matasse o escritor, não importa como, não importa onde. Uma megasena acumulada para quem quisesse arriscar-se no papel de assassino por um dia. Como de louco esse mundo está cheio, Salman Rushdie achou por bem fazer um resguardo, e nunca mais pegou um solzinho. Trocava de endereço com regularidade para despistar os fanáticos e só dava entrevistas em lugares ultra-secretos, sob intensa proteção policial. Em 1985 chegou a ser convidado para a Feira do Livro de Santiago do Chile e, para desespero dos carabineros locais, aceitou o convite. Mas ninguém pôs os olhos no homem. O governo chileno ficou tão alarmado com a possibilidade de um atentado em seu país que o sistema de segurança foi de um extremismo de dar inveja ao aiatolá. O escritor passou trancado no hotel e, se viu a cordilheira dos Andes, foi da janelinha do avião.
Pois semana passada Salman Rushdie recebeu seu alvará de soltura. O presidente do Irã, Mohammad Khatami, retirou seu apoio ao decreto que perseguia Rushdie, num importante passo para melhorar as relações diplomáticas com a Grã-Bretanha e, conseqüentemente, com toda a União Européia. A pergunta é: fanatismo tem volta?
Tanto não tem que alguns radicais muçulmanos já declararam que a condenação é irrevogável, e uma fundação iraniana, sem vínculo com o governo, garante que paga os 2,5 milhões de dólares prometidos para quem apagar o desaforado. Rushdie, no entanto, cansou da brincadeira de gato e rato e já anda borboleteando por Carnaby Street.
Foi dada uma solução política para um impasse religioso. São duas áreas que geralmente se entendem, mas não numa sociedade intolerante e cega em sua devoção. Fanáticos não pensam: executam. São robotizados desde criancinhas. Entendo que ficar trancado entre quatro paredes não é vida.
Salman Rushdie vai aproveitar essa trégua para tirar o mofo e aproveitar um pouco a fama que o episódio lhe trouxe, mas é ilusão achar que um decreto presidencial tem o mesmo poder que Alá. Que Rushdie viva 100 anos, mas eu não tiraria o colete à prova de balas nem para dormir.
Setembro de 1998