Trem-Bala
Pobre Ratinho Rico
Cyborg era um homem de seis milhões de dólares, e isso parecia, na época, dinheiro que não acabava mais. Pfiu, escreveria o finado Francis.
Perto do Ratinho, Cyborg é um indigente.
Já escrevi sobre o fenômeno chamado Carlos Massa, um apresentador que confunde popularização com grossura, que diz que cultura não serve para nada e que atrai audiência mostrando na telinha pessoas com deformidades que fariam os maquiadores do filme Alien devolverem seus Oscars. Agora esse baluarte da ignorância e da apelação trocou de emissora por um salário mensal de mais de um milhão de reais, incluindo aí faturamento em merchandising. O ás que ele tem na manga: carisma.
Chico Buarque não ganha isso, nem Fernanda Montenegro nem João Cabral de Melo Neto. Não ganham isso os maiores empresários do país, nem o presidente. Não ganham isso os médicos que salvam vidas, os agricultores, os professores. Ninguém que seja fundamental para a sociedade recebe por mês um milhão de reais, nem cem mil, nem dez: é gente que estuda, lê, viaja, aprende, atualiza-se e dá um duro danado para pagar as contas, mas que gera dividendos sociais, enquanto o que se quer é cash. Dinheiro chama dinheiro. Hoje só é valorizado quem tem talento para encher cofres alheios. Quem consegue vender bonecas, como Angélica, quem consegue vender revistas, como Carla Perez, quem consegue fundar templos rentáveis, como Edir Macedo. Enfim, quem tem uma imagem hipnótica e um conteúdo invisível.
É justo que Ronaldinho, Madonna e Michael Jordan ganhem seus milhões.
Ninguém chega tão longe através apenas de um marketing bem feito. Eles também geram dinheiro para os outros, mas fazem isso incentivando o esporte, a música, a alegria. É a indústria do lazer, tão fundamental quanto educação e saúde. Mas que um Ratinho ganhe mais do que todos eles convocando pobres coitados para brigarem ao vivo como galos de rinha, que fature em cima de pessoas portadoras de anomalias com o pretexto de estar ajudando a quem precisa, que seja tão bem pago para alienar e incentivar a agressividade física e verbal, que ganhe espaço na mídia para vangloriar-se por nunca ter lido um livro na vida, é desanimante.
Se ele tem tanta audiência é porque existe muita gente analfabeta nesse país, e vai continuar existindo enquanto nossos ídolos forem tão carismáticos e medíocres. Pessoas como o Ratinho têm todo o direito de subir na vida, com ou sem estudo. É um homem honesto, autêntico e está trabalhando, não roubando, mas infeliz do país que tem um raro cidadão ganhando um milhão de reais por mês sem que um único centavo dessa quantia seja gasto numa livraria, num museu, num espetáculo de dança.
Isso é que é pobreza.
Setembro de 1998