Trem-Bala
O Casamento Invisivel
Tempos atrás, os casais costumavam agendar com antecedência uma cerimônia de casamento para o mês de maio, em nome da tradição. Hoje em dia, a maioria está elegendo o mês de dezembro como o período ideal para iniciar vida nova, pois é quando conseguem unir em matrimônio o décimo-terceiro salário e as férias. A tradição, que fique solteira.
15 de maio. 17 de dezembro. 26 de agosto. 30 de junho. Na verdade, a data em que nos apresentamos ao padre e ao juiz pouco importa. Casam-se homens e mulheres, diariamente, às três da tarde num banco do Parcão, às duas da manhã num quartinho de fundos, ao meio-dia comendo um cachorro-quente no Rosário, às seis e meia na fila da padaria. Casamos aos pouquinhos, casamos em silêncio, casamos várias vezes ao dia, durante os muitos meses do namoro.
Casamento é uma palavra que nos remete a véu, grinalda, bolo, presente, padrinhos. Faz parte do ritual e eu acho bonito. Mas engana-se quem pensa que a data e a hora escolhidas para o sim vão provocar uma fusão instantânea dos dois corações. A hora e data do casamento não são, ou não deveriam ser, o começo de uma relação novinha em folha, e sim a confirmação de que o casamento aconteceu na prática, na convivência, muito antes de o par tomar qualquer resolução formal. O verdadeiro casamento não exige aparato: é invisível.
Assim como alguns namorados se sentem casados antes de assinar os papéis, outros só casam bem depois. Casam formalmente, digamos, no dia 19 de março, mas seguem namorando. São casados no papel mas não nas almas, abrindo terreno para o ciúme doentio, a desconfiança, os tapas e beijos que combinam bem com música sertaneja mas que, no dia-a-dia, só desafinam o casal. Tem casais que só casam, profundamente. depois de três anos de casados, casam só depois dos filhos nascidos, só depois de alguma boda completada. E há os que não casam nunca, mesmo que estejam há séculos compartilhando o mesmo leito, o mesmo sobrenome, o mesmo cotidiano, com a benção de Deus.
Casamento não é uma decisão, é um acontecimento natural, um entrelace de sentimentos e interesses comuns. Não nasce de uma data, mas de um beijo, de uma eletricidade no ar, de uma fusão cósmica, de sei lá o que que não se explica nem se registra em cartório. E alguns eleitos conseguem realizar a mágica de fazê-lo durar para sempre, permanecendo casados até mesmo após o divórcio ou a viuvez, desafiando o tempo e as convenções.
Abril de 1999