Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 65 de 107

Páginas do PDF

Trem-Bala

O que Acácio Lopes de Moura tem…

EMANCIPAÇÃO MASCULINA

O que Acácio Lopes de Moura tem em comum com Jorge Carlos Senter? Estão mortos. Acácio suicidou-se na sexta, 13 de novembro, e Jorge no sábado, 14. Ambos reservaram para si as últimas balas do revólver: as primeiras foram disparadas em suas respectivas companheiras. Motivo: ciúme.

Nenhum crime passional é original. Desde que o mundo é mundo que homens matam mulheres por causa de adultério, mas, no Brasil, o assunto só começou a ganhar repercussão a partir do caso Doca Street e Ângela Diniz, quando a tese de legítima defesa da honra perdeu força e acabou inspirando um movimento cujo lema era “quem ama não mata”, que até virou título de minissérie. A diferença é que, hoje, os homens não estão esperando mais pela pulada de cerca: estão matando por antecipação.

Olhou para o lado, bang! E também não estão mais esperando para serem julgados por um tribunal.

Eles próprios se condenam e se eliminam, e a honra vai com eles pro céu.

Homens não se matam por perderem uma vaga de emprego para uma mulher.

Não se matam se tiverem que ser chefiados por alguém que pinta as unhas. Não se matam se o piloto do avião chamar-se Flávia, se o táxi for conduzido por uma Amanda, se estiver escrito Dra. Cíntia na porta do oftalmologista. Homens não se matam por dividirem o mundo com as mulheres, ainda que nem todos apreciem a idéia. A morte só passa a ser considerada como alternativa quando as mulheres ameaçam o monopólio masculino do sexo. Aí não tem perdão.

Ainda que eu acredite que os maiores responsáveis por esse tipo de crime sejam a ignorância e a facilidade de se ter uma arma, o fator psicológico tem sua parcela de culpa. O homem agüenta qualquer tipo de concorrência, menos a concorrência afetiva. Não são mais donos dos empregos, dos carros e das mesas de bar, mas seguem acreditando que são donos de suas mulheres. E na iminência de perderem a única sensação de posse que lhes restou, tornaram-se ciumentos patológicos.

A ex-namorada de Acácio havia terminado com ele um namoro de nove meses, como acontece todos os dias em todas as cidades. Acácio não suportou.

Matou-a para perpetuá-la no cargo. O mesmo fez Jorge, que brigava dia e noite com a esposa. Sentindo, talvez, que estivesse a um passo de perdê-la, resolveu ajudá-la a partir, ofertando-lhe um tiro no braço, um no estômago, um no peito e outro no pescoço, e como decidiu ir junto, reservou para si um tiro derradeiro na cabeça. Ruim de mira, partiu sozinho. Sua esposa, gravemente ferida, sobreviveu. Essa história tem um final sintomático. As mulheres sofreram muito para conquistar seu direito de ir e vir, de fazer suas escolhas, de ser donas do próprio nariz. Agora é hora de ensinar nossos filhos a serem felizes sem serem donos de coisa alguma, nem mesmo das mulheres que irão amar. Os homens precisam lutar por sua própria emancipação, caso contrário continuarão matando em nome de uma honra que não lhes faz mais jus.

Novembro de 1998