Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 104 de 107

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Trem-Bala

O Jogo da Velha

Andei sublinhando dezenas de trechos interessantes do livro Mulheres que correm com os lobos, da psicanalista Clarissa Estés, que me foi presenteado por nada menos que Lya Luft. Ainda vou falar muito sobre o livro e suas idéias a respeito da mulher selvagem, mas hoje me concentro num assunto que já foi abordado por outros autores e que sempre me deixou com a juba eriçada.

“Se uma mulher conseguir manter o dom de ser velha quando jovem e jovem quando velha, ela sempre saberá o que vem depois”. A frase está lá na página 52, completamente integrada ao texto, mas mesmo sozinha faz todo o sentido, ao menos pra mim, que nasci com 100 anos e venho regredindo desde então.

Desacato não era o meu forte na adolescência. Por fora, parecia com qualquer garota da minha geração, mas por dentro era morfética. Lia 24 horas por dia, principalmente sextas e sábados à noite. Obediente. Cdf.

Quase moralista. Não jogava vôlei, mas era craque na ioga. O apelido de um namorado meu era Cabeça, daí você imagina como a gente se divertia juntos.

Hoje olho para as garotas que debochavam do meu jeito cavernoso de ser e adivinhe: estão domesticadas e usam meia-calça branca, como boas mães de família. Tomaram juízo.

Não estou sozinha na contramão: muitas de nós têm a mesma história pra contar. Mulheres que, quando meninas, rezaram pela cartilha da reverência, da ordem e progresso, do abafamento do instinto, e que só através desse aprendizado é que formaram a base e a estrutura necessárias para contestar o estabelecido e reinventar-se. Ao observar os desenhos de Picasso quando jovem, ficamos surpresos com seu academicismo, com seu domínio de anatomia, com a obediência dos traços. Leva tempo até a gente poder trocar olhos e bocas de lugar, fundando um estilo e uma regra próprios.

Ainda sobrevivem, no entanto, aqueles que acham que o tempo de rugir é a juventude, ficando para a meia-idade e a velhice o tempo de perder os dentes. Contesto, meritíssimo. A juventude é um receptor de emoções originais, mas também de preconceitos herdados. A juventude é barulhenta, quando deveria ser astuta. É estabanada, quando deveria ser observadora.

É arrogante, quando deveria ser humilde, e deveria idolatrar menos os Kurt Cobains da vida que elegeram como lema “viver dez anos a mil” e que hoje estão a sete palmos da terra. Há tempo de sobra para ser jovem mais tarde, quando temos mais autonomia e menos medo da verdade.

Julho de 1999