Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 92 de 107

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Trem-Bala

Amanhã é 13 de maio, quando se…

OUTRAS ABOLIÇÕES

Amanhã é 13 de maio, quando se completam 111 anos que a princesa Isabel assinou a carta que alforriou os escravos. Poucos se lembrarão da data, já que só temos olhos, ouvidos e cronômetros para os 500 anos do descobrimento do Brasil, aniversário que, a meu ver, está gerando muito oba-oba e pouca reflexão.

Ainda que a Lei Áurea não esteja sendo cumprida em todo território nacional, é o que de mais significativo se fez para defender a liberdade dos cidadãos, especialmente dos negros. Aboliram o tronco, as chibatadas, a exploração, a compra e venda de trabalhadores. Agora falta abolir o resto.

Abolir os síndicos que determinam que empregados devem subir pelo elevador de serviço, abolir os empregadores que reservam suas vagas para os de pele clara, abolir quem julga um negro suspeito em detrimento de um loiro, abolir a ignorância e a altivez.

Aproveitando o ensejo, poderíamos abolir também a rispidez dos que não têm tempo para escutar os outros, a empáfia de quem leva demasiadamente a sério a hierarquia e a agressividade de quem tem baixa auto-estima.

Abolir a ganância de quem não se contenta com uma mansão e uma cobertura em Miami, a breguice de quem vai para a tevê contar detalhes da sua vida íntima e a sordidez de quem falta ao plantão deixando gente doente à espera numa fila.

Se não for abuso, poderíamos abolir de vez o mau-caratismo, o ressentimento e o grampo telefônico. Alforria para os que trabalham oito horas por dia e não têm uma casa pra morar e remédio no posto médico.

Liberdade para quem precisa estudar mas não tem quadro-negro na escola, nem cadeira pra sentar, e a fiação está exposta nos banheiros.

Pessoalmente, aboliria também os flanelinhas, o horário político fora do período de eleições, os serviços de telemarketing e todos os programas de auditório dominicais. Melhor ainda: aboliria os domingos.

Do sério ao trivial, há muita coisa a fazer antes de cantarmos parabéns pra nós mesmos. Estamos soltando rojões em homenagem a Cabral e perdendo uma ótima oportunidade de avaliar onde erramos. Nosso país está menos jovem, mas segue imaturo. Tem mais passado e cada vez menos futuro. Em vez dessa contagem regressiva a uma data que, por si só, não diz nada, deveríamos começar a contar os dias para abolir o Brasil que, na prática, não decolou, e alforriar esse Brasil que só na teoria funciona.

Maio de 1999