Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 20 de 107

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Trem-Bala

Trancados por Fora

“É só numa casa que nos sentimos verdadeiramente sós. No jardim há no mínimo pássaros e gatos, nunca estamos sós num jardim. Dentro de casa estamos tão sozinhos que às vezes nos perdemos de nós mesmos.”

Assim começa o prólogo escrito por Marguerite Duras para um livro maravilhoso chamado Writers Houses, que acredito não ter sido lançado no Brasil. O livro mostra fotos inéditas das casas onde viveram e trabalharam os escritores Jean Cocteau, William Faulkner, Ernest Hemingway, Knut Hamsun, Marguerite Yourcenar, Hermann Hesse e muitos outros, e depoimentos sobre a influência que o lugar exerceu sobre a obra do autor.

A casa de um escritor é mais que um lar: é seu escritório, seu esconderijo, seu bunker. É onde ele organiza suas memórias, acalma seus medos, estimula suas idéias e cria a solidão necessária para escrever. A casa de Jorge Amado, na Bahia, poderia ser a casa de Gabriela, de Tieta ou de qualquer um de seus personagens. Cruzar sua porta é invadir os cenários criados pelo autor: não há fronteira entre o real e o imaginário. O mesmo se pode dizer do apartamento de Fernanda Young, a mais nova revelação da literatura urbana paulista. Sua casa, recentemente fotografada para uma revista de decoração, é a cara da dona: moderna, divertida, cheia de signos. Mesmo quando a casa de um autor não está intimamente ligada às histórias que ele inventa, ainda assim é um espaço que costuma despertar certa reverência, como se aquela escrivaninha no canto da sala fosse uma espécie de altar, e não apenas um móvel como outro qualquer.

A escritora inglesa Virginia Woolf, que também está no Writers Houses, publicou em 1929 um ensaio onde defendia a tese de que tudo o que uma mulher necessita para iniciar uma carreira literária é independência financeira e um teto todo seu. Um lugar com poltronas aconchegantes, tapetes agradáveis, que confiram dignidade à sua intimidade. Um lugar para onde levar as discussões, a raiva e o riso acumulado durante o dia.

Um lugar para armazenar-se.

Veio-me tudo isso à cabeça, depois que assisti à tragédia do Palace 2, no Rio. Não havia escritores morando no prédio, mas todas aquelas pessoas armazenavam o ingrediente com que se faz literatura: enxovais, cartas de amor, berços, gravuras, poltronas aconchegantes e tapetes agradáveis. De repente, todos aqueles moradores se viram trancados pelo lado de fora, sem poder voltar para a história que haviam inventado. São histórias inéditas, mas não menos importantes do que as que são publicadas. De certo modo, todos nós escrevemos dentro de casa nossa própria biografia, todos nós fazemos poesia entre quatro paredes, e também novelas, romances, ensaios. Essa gente que perdeu o próprio teto vai ter que refugiar-se em tetos vizinhos, tetos de parentes, de amigos, de hotéis.

Perderam com isso a bênção da privacidade, matéria-prima para qualquer história de vida.

Março de 1998