Trem-Bala
O Lixo do Século
Ando perdendo o animo, e isso é novo pra mim. Sou uma otimista incorrigível. Eu, Pollyana e a velhinha de Taubaté temos laços de sangue.
Nunca acreditei na má índole das pessoas, sempre confiei na recuperação dos teimosos, na reabilitação dos ignorantes e confiava que dentro do peito de cada político também batia um coração. Sabia dos problemas do Brasil, mas me consolavam as nossas riquezas: uma música maravilhosa, um litoral belíssimo, sol e gente alegre. Pois agora eu trocaria tudo isso por um pouquinho de dignidade.
Já não me consola o Gil ter ganho o Grammy e a Fernanda Montenegro nos representar na noite do Oscar. Dane-se o carro mais potente do Rubinho, a beleza de Shirley Mallmann, danem-se nossas palmeiras e coqueirais.
Que me importa se a Vera Fischer vai aumentar o Ibope da novela, se a Tiazinha vai ganhar um programa próprio, se o Gugu está usando costeletas? A indústria do entretenimento cresce e isso é ótimo, mas algo de muito sério está acontecendo atrás do palco.
As novidades do próximo milênio só passarão a me interessar se conseguirmos nos livrar do retardamento intelectual e do terrorismo social em que vivemos hoje, antes que eles nos acompanhem nessa virada.
Não podemos entrar no ano 2000 sem herdeiros para Chico Buarque, Caetano, Tom Jobim. Para cada Carla Perez, tem que surgir uma nova Ana Botafogo.
Para cada Vinny, tem que surgir uma nova Rita Lee. Onde estão?
Na área social, o drama é ainda pior. Não podemos entrar no ano 2000 com tantas filas, tantos impostos, com a falta de solução para tanto banditismo. Não é possível que policiais que tiveram uma passagem meteórica pelos bancos escolares de repente tornem-se portadores de uma arma e de uma credencial e saiam matando meninos e meninas pelas ruas, descontroladamente. Não podemos continuar convivendo com a falsificação de remédios, com a contravenção autorizada na Rocinha, com o coronelismo do Nordeste, com a quantidade de crianças sem estudo, com o desvio de dinheiro público, com o mau-caratismo desbancando o Corcovado como nosso cartão-postal.
Eu, que não tenho do que reclamar da vida, reclamo por medo antecipado, reclamo porque quero continuar caminhando livre pelas calçadas, reclamo por quem não tem voz nem espaço nos jornais. Está na hora de desovar os podres desse Brasil lindo e trigueiro, reciclar o lixo que não queremos levar conosco para o milênio seguinte. Desarmamento, educação, aplicação da lei, incentivos culturais, medicina sanitária. Não pode ser tão difícil. Nem tão caro. Nem tão raro.
Março de 1999