Trem-Bala
Mulheres de Preto
Depois do sucesso de Men in Black, os cinemas deveriam estrear Women in Black. Roteiro: a invasão de seres pouco imaginativos em festas, coquetéis e boates. Você já viu esse filme.
Podemos ter pouca imaginação, mas perder a elegância, nem mortas. Mulher alguma atreve-se a ter apenas marrom, azul e cáqui no seu guarda-roupa: é fundamental ter um pretinho básico como curinga. Um, não. Duas dúzias.
Nunca se sabe quando vai ser preciso provocar uma boa impressão.
O preto é a cor desse final de século. Basta o sol se pôr para o preto libertar-se dos closets femininos: sapatos, meias-calças, vestidos, tops, blazers e jaquetas ganham as ruas, deixando a cidade com cara de Gotham City. Pode-se variar os tecidos — couro, microfibra, algodão, lã fria —, mas a cor é luto fashion. Por quê? Porque é guerra.
O preto vence todas. Vence, em primeiro lugar, a batalha contra culotes e barrigas salientes, alongando a silhueta e disfarçando a caixa de Bis que você devorou à tarde. Se não der tempo para fazer uma dieta meteórica, preto!
Vence, em segundo lugar, a luta contra a breguice. É muito mais difícil ficar cafona vestindo preto do que vestindo pink. Se você tem dúvidas quanto ao que é chique e o que não é, não arrisque. Deixe aquele blazer xadrezinho verde e amarelo para a próxima Copa.
Preto combina com cabelos loiros, ruivos e negros. Combina com peles alvas e peles bronzeadas. Combina com echarpes estampadas, botões cheios de bossa e batons e esmaltes das mais variadas cores. Combina com show de rock e recital de violoncelo, combina com festa de casamento e velório cult, combina com quem ainda não fez 15 e com quem já tem mais de 100.
Só não combina com caspa.
O detalhe que estraga tudo: não somos apenas eu e você que rezamos por essa cartilha. Tirando a Rosane Collor, que é chegada num brocado e num azul celeste, o mulherio de norte a sul sai de preto para jantar, para dançar e para se arranjar. Virou uniforme, e como tal, anda causando o efeito oposto ao esperado: em vez de nos destacar, acaba nos camuflando.
Uma amiga uma vez trocou acenos e sorrisos com um homem maravilhoso numa casa noturna. Descobriu o nome e o telefone dele e no outro dia, não teve dúvida, ligou. Como se identificou?
— A gente se viu ontem no Dado Bier. Eu era aquela que estava de preto.
Por essas e por outras que um vestido amarelo canário também tem o seu valor.
Novembro de 1997