Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 72 de 107

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Trem-Bala

O Palácio e o Apê

O recente assalto sofrido pelos seguranças do governador trouxe novamente à tona a discussão sobre qual seria a residência adequada para a família Dutra. Continuar no pequeno apartamento da Assis Brasil ou mudar para o Palácio Piratini? O governador e sua esposa relutam em deixar o lar doce lar que habitam há 23 anos, mas as famílias Silva, Oliveira, Dias, Soares, Rodrigues, Machado e outras tantas espalhadas pelo sul do país não pensariam duas vezes: mudariam de mala e cuia para um lugar mais luxuoso, ajardinado e com espaço para jogar golfe dentro do quarto, caso gostassem de golfe.

Palácio tem essa mística: é o cenário dos coroados, onde não se permite a entrada de qualquer um. Em palácios tudo reluz, tudo é exagerado. As camas são olímpicas, os jardins são florestas, as mulheres viram Sissi, os homens viram reis. Não é ambiente para um trilho de crochê sobre a mesa de jantar, uma imagem de São Jorge, um quadro com cinco fotos em sépia do bebê, um paninho em cima do fogão e discos do Só Pra Contrariar: os lustres têm pingentes de cristal que foram feitos para reverberar ao som de Mozart.

Palácios são opressores, não têm atmosfera doméstica. Não dá para sair do palácio e bater na vizinha para pedir uma xícara de açúcar. Não dá para deixar o encanador usar o banheiro. Não dá para trazer a turma do futebol para comer um churrasquinho. Não dá para se debruçar na janela e olhar o movimento da rua. A princesa Diana reclamava de tudo isso quando vivia no Palácio de Buckingham. Não dá.

Olívio Dutra não é rei, é empregado, ainda que o empregado mais importante do Estado. Talvez acredite que a mudança de endereço acarrete também uma mudança na sua imagem de homem popular e democrático. Se ao menos a mudança fosse para um sobrado oficial, uma cobertura oficial, um condomínio fechado oficial, teria mais conforto sem deixar de ter um lar, mas um palácio não é sinônimo de conforto, e sim de suntuosidade.

Fica estranho receber uma carona de um amigo e perguntar “quer entrar para um cafezinho?” Palácio é que nem navio: seria perfeito, desde que você pudesse sair no meio da noite para dar uma volta no quarteirão.

As caminhadas pelos quarteirões da Assis Brasil também devem estar limitadas, portanto, seria mais sensato o governador hospedar-se no Palácio Piratini pelos próximos quatro anos, em benefício da sua segurança e dos que o cercam. Mas que faz falta o cheiro da comida vindo da cozinha, faz.

Janeiro de 1999