Trem-Bala
O Fascínio por Quebrar Recordes
Quanto mais eu acho que entendo o ser humano, mais descubro que sei é nada. Um estudante americano acaba de ficar 770 horas dentro de um carrinho de montanha-russa, pra cima e pra baixo, sem parar: isso dá mais de um mês! Pessoas que realizam esse tipo de proeza geralmente têm emprego, família e atestado de sanidade: de onde tiram essas idéias de jerico?
Admiro quebras de recordes que são circunstanciais. Wilson Grey foi o ator que mais fez filmes no Brasil, 250. Cid Moreira foi quem ficou mais tempo no ar apresentando o mesmo telejornal, desde 1969. Garoto Bombril é a série de comerciais mais duradoura da propaganda brasileira. E A Ratoeira, de Agatha Christie. é a peça teatral que mais tempo está em cartaz, em Londres. Recordes que foram batidos por causa do sucesso, não pela perseverança.
Recordes programados só se justificam no esporte. É bacana ver um homem ou mulher tentando superar seus limites, nadando mais rápido, saltando mais longe, goleando mais vezes. É o que diferencia um mortal de um campeão .
O resto é loucura. Homens que puxam boeings de 200 toneladas com a boca.
Que pedalam de costas por mais de 70 km. Que tatuam 99% do corpo. Que percorrem 20 km dando cambalhotas. Que arrumam uma cama em oito segundos.
Pra quê?
Para constar do Guiness Book, o maior best-seller depois da Bíblia, publicado em cerca de 40 idiomas. Está lá o recorde de aplauso conquistado por um indiano, que ficou batendo palmas 58 horas e 9 segundos (quase três dias), o recorde em segurar cartas de baralho (326 numa única mão, deixando os valores e os naipes à vista), ou o recorde de livro retirado de uma biblioteca e não devolvido no prazo: 228 anos!
E a multa nem foi cobrada.
A intenção original do Guiness, que teve sua primeira edição em 1955, na Inglaterra, era esclarecer controvérsias relativas a diversos assuntos, mas isso foi antes do mundo globalizado, da Internet, da idolatria pela mídia. O Guiness tornou-se um trampolim para entrarmos para a história nem que seja brevemente, até que alguém mais maluco do que nós nos devolva ao anonimato.
Julho de 1998