Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 30 de 107

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Trem-Bala

Atrasados e Orgulhosos

As atrizes Christiane Torloni e Silvia Pfeifer estão protagonizando um casal de homossexuais na nova novela das oito, Torre de Babel. Não estou acompanhando diariamente, mas já vi algumas cenas. Não fôssemos avisados pela mídia, poderíamos julgar que interpretam duas irmãs. Mãozinhas nos ombros, sorrisinhos, piscadelas. Conversam muito no quarto, tiram a roupa na frente uma da outra, já tomaram um banho juntas. Nisso resume-se toda a indecência.

Christiane Torloni disse em entrevista que as pessoas se chocam não com o que vêem, mas com o que imaginam ver. É dentro da cabeça da maioria dos telespectadores que se passam as cenas que nunca foram gravadas: orgias, beijos lascivos, sexo oral. Ficam todos indignados com um escândalo que na verdade não há. Christiane e Silvia estão apenas representando, de uma maneira discreta, uma parcela da sociedade que também ama, vota e paga impostos. Mas a tradicional família brasileira tem a sua própria definição do que é realidade e o que é ficção.

Realidade é a maneira que gostariam que o mundo fosse. Ficção é o mundo como ele é. Homossexualismo na tevê, só se for em programa humorístico, como o seu Peru da Escolinha do Professor Raimundo ou o Tonhão da TV Pirata. Em novela, se for uma bicha bem caricata, aceita-se. Mas todos devem ter a recompensa que merecem: amargar na solidão. Foi então que começaram a aparecer os casais gays e ninguém mais achou graça. Casais têm estabilidade, não são promíscuos nem degenerados. Não são engraçados.

Se não nos fazem rir, servem para quê? Para abrir nossa mente: que petulância. O caso entre os personagens de Christiane e Silvia é ainda mais desestabilizador porque elas são brancas, ricas e lindas, representantes da nata, aquela que está acima de qualquer suspeita. Até ontem queríamos ser parecidas com elas, como pudemos ser traídas desse jeito?

Às portas do século 21, o brasileiro ainda resiste em aceitar estilos de vida alternativos. Acha que entender e respeitar um comportamento diferente do seu significa adesão. Falta-lhe segurança nas próprias escolhas, humildade para permitir que o mundo evolua sem o seu consentimento, oxigênio para respirar novos ares e um humor menos pastelão. E um bom par de óculos, sem o qual atravessará o milênio aos tropeços.

Junho de 1998