Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 37 de 107

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Trem-Bala

A Dor que Dói Mais

 

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.

Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância.

Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.

Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de caju. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido às aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Julho de 1998

A MORTE, A VIDA E O AMOR

Poucos filmes conseguem abordar três assuntos tão amplos em apenas duas horas. Cidade dos Anjos consegue. O filme está em cartaz no Brasil, com Nicolas Cage e Meg Ryan nos papéis principais. Trata-se de uma adaptação do filme Asas do Desejo do alemão Wim Wenders, porém a versão americana é mais pop e comercial. Fui com dois pés atrás e saí com dois olhos encharcados.

Cidade dos Anjos não é uma obra-prima, a atuação de Meg Ryan é razoável e os diálogos são corretos e só a seu favor, o filme tem uma bela fotografia, uma trilha sonora bacana, um Nicolas Cage afiado e um roteiro que valoriza, adivinhe quem, o amor. Há quem prefira a artilharia pesada dos filmes de Bruce Willis, Stallone, Van Damme e Schwarzenegger, mas um pouco de romantismo não faz mal a ninguém.

O filme conta a história de um anjo que se apaixona por uma médica. Eu sou cética de carteirinha, mas me rendi ao sobrenatural. O conflito do filme é o seguinte: vale a pena um anjo abrir mão da sua eternidade para virar um simples mortal, e assim poder viver um grande amor? Como vocês sabem, anjos não têm sexo, e mesmo que tivessem, não teriam dinheiro para o motel. Anjos não têm fome, sede, sono. Transportam-se de um lugar para o outro sem precisar de um táxi, atravessam paredes, entendem todos os idiomas, lêem nossos pensamentos. Missão: proteger-nos enquanto não for nossa hora e buscar-nos quando a hora chegar. Não é pouca coisa, se levarmos em conta que trabalham sem carteira assinada e sem décimo terceiro.

Conclusão: ter um anjo da guarda é ótimo, mas ser anjo é roubada. Nada substitui as coisas simples da vida, como pegar jacaré no mar, dar uma mordida numa pêra, tomar uma chuveirada ou receber um beijo na boca. É claro que a mortalidade inclui também ser pego desprevenido por um temporal, perder o emprego, ter nosso cartão do banco extraviado ou arrancar um siso. Viver é correr riscos, é conhecer a dor e o prazer, a solidão e a paixão. Anjos são imunes a isso tudo. Seu único consolo é que não morrem. Eu prefiro colidir com um poste a não viver.

Cidade dos Anjos, anote aí. A morte, a vida e o amor ao preço de um único ingresso. Está longe de ser um Woody Allen, mas faz você pensar e valorizar muito mais a sua coca-cola, o seu edredom, a sua aula de natação, o seu CD do Ed Motta e o cafuné do seu namorado, todas essas coisas que os anjos não podem sentir nem tocar.

Junho de 1999