Trem-Bala
A Zona Franca do Pensamento
Qual é a invenção que lhe deixa mais perplexo, aquela que foge à sua compreensão? Tantas. O avião, por exemplo. Como consegue voar aquele zepelim de aço, com 300 passageiros e suas respectivas bagagens provenientes de Miami? Internet: eu aqui e você em Cingapura, conversando a um custo de eu aqui e você ali na esquina. Fax: coloco uma folha de papel num aparelhinho e ele sai reproduzido, no mesmo instante, em Guiné-Bissau.
Televisão: uma câmera capta a minha Imagem e eu apareço, ao mesmo tempo, num casebre do Morro da Cruz e numa mansão da Barra da Tijuca, ao vivo, a cores e em dolby stereo. Ultra-sonografia. Gestação in vitro. Clonagem.
CD. Reverencio a tecnologia e hoje me arrependo de ter matado algumas aulas de física e biologia, que me ajudariam a entender melhor como funciona o mundo que me cerca. Só numa invenção pisoteio e cuspo em cima: no detector de mentiras.
A poucos dias ele ajudou a solucionar um crime ocorrido em Rio Pardo. O aparelho mede a intensidade de alguns fenômenos ondulatórios. Conforme a oscilação da voz dá para confirmar se alguém está ou não dizendo a verdade. Uma geringonça que se julga capaz de adivinhar o que pensamos!
É um atrevimento até para com os criminosos.
O pensamento é o território mais protegido do mundo, e ao mesmo tempo o mais livre. Só nós sabemos o que se passa por nossa mente. Nele cabe um mundaréu de gente, todas as pessoas que somos, todas as que conhecemos, e mais aquelas que imaginamos, e delas somos seu deus e seu diabo. O pensamento não exige ortografia, pronúncia, sensatez. O pensamento não tem fronteiras, lógica, advogado de defesa ou carrasco. O pensamento é zona franca, terra de ninguém, um lugar onde sempre há vaga.
Vivemos cercados de microcameras, repórteres, olheiros, pardais, caetanos, alarmes. Não conseguimos mais entrar nem sair de algum local sem passar por um censor de fibra ótica. Olhos mágicos, crachás, telemarketing, elevadores que falam, cartões magnéticos, aparelhos de escuta, cães farejadores, testes de DNA. Somos constantemente vigiados, qualquer um nos localiza, identifica, surpreende. O pensamento é o único lugar onde ainda estamos seguros, é onde nossa loucura é permitida e onde todos os nossos atos são inocentes. Que instale-se um novo mundo cibernético, mas que virem sucata esses detectores de mentiras, tão sujeitos a falha. Dentro do pensamento não há tecnologia que consiga nos achar.
Março de 1999