Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 71 de 107

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Trem-Bala

Tiazinha, Zorro e Outras Máscaras

Chegando perto do carnaval, começa a movimentação em busca de acessórios que dêem vazão à nossa fantasia: plumas, lantejoulas, paetês, purpurina e, por último mas não menos importante, máscaras. Seja no Rio de Janeiro ou em Veneza, a máscara sempre foi um produto carnavalesco de primeira necessidade, pelo seu caráter de mistério e fetiche, mas tudo leva a crer que subirá de status esse ano, já que tem sido divulgada por uma foliona de respeito.

Ela mesma, Tiazinha. Não sei se Suzana, a mulher por trás da máscara, sairá por alguma escola, mas já pode ser eleita a musa do Sambódromo.

Passou 98 desfilando de mulher-gata sadomasoquista, disparou corações e pontos no Ibope e provou que somos alvos fáceis de quem não mostra a verdadeira face.

Máscara serve para não ser reconhecido, estão aí os Irmãos Metralha se valendo desse recurso até hoje. Mas os bandidos de verdade já não a utilizam, ao menos não as feitas de tecido negro, com dois buracos para os olhos e um elástico prendendo atrás. Bandidos usam máscaras, sim, mas são reproduções idênticas do próprio rosto, feitas de pele, osso e cinismo, muito fáceis de encontrar em Brasília. Não são máscaras de aparência, mas de retórica.

Tiazinha não é bandida. Rouba apenas a atenção da mídia, e em troca desperta libidos adormecidas e acende o imaginário alheio. Esconde-se para que os outros se revelem. É o Zorro de cinta-liga.

Cada um usa a máscara que lhe cai melhor. Óculos escuros, por exemplo, não são usados apenas como proteção contra o sol. Protegem-nos também de nossas lágrimas, de nossas rugas, de nossos terçóis, de nossa tristeza.

Protegem-nos quando queremos olhar sem que nos percebam, quando somos famosos e não queremos ser descobertos, ou quando não somos e queremos parecer que sim. É o Zorro de Ray-Ban.

Faz falta, para muitos, um segundo rosto. Nada é mais revelador que nossa testa franzida, nosso olhar de medo, nossa face ruborizada, nosso queixo que treme. Tiazinha, por trás da máscara, talvez tenha olheiras e alguma melancolia. Talvez seja uma mulher que chora, que acorda inchada e tem pudor. Uma mulher desencantada com o anonimato. Sem máscara, seria linda como outras. De máscara, é linda e secreta, linda e pervertida, linda e única.

Não é fácil dar a cara sem defesa, entregar o rosto virgem, deixando transparecer nossa alegria e nossa dor. Desmascarar-se é um ato de bravura, por isso perdoa-se a barba que esconde a cicatriz, o silicone que disfarça imperfeições, a maquiagem que resgata a juventude. É o Zorro de cada um.

Janeiro de 1999