Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 36 de 107

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Trem-Bala

Sozinha no Restaurante

Já escrevi sobre isso: acho a solidão uma bela companheira. Caminhar sozinha, ir ao cinema sozinha, fazer compras sozinha, nada disso me parece melancólico, ao contrário, até prefiro. É claro que a solidão só me dá prazer na medida em que sei que ela é uma escolha: companhia é o que não me falta. Tenho a sorte de contar com um staff de amigos e familiares que preenchem minha vida plenamente. Solidão só dói quando é inevitável.

Já morei sozinha e também viajei sozinha, o que significa hospedar-se em hotéis, andar de trem, visitar museus, decidir itinerários, passear no parque, ir à praia e pegar o metrô dividindo as surpresas e alegrias consigo própria e ninguém mais. É muito bom, poucas coisas promovem tanto autoconhecimento. Apenas uma coisa nunca consegui fazer só: jantar num restaurante.

Cadeias de fast-food, pizzarias, cafés e similares combinam com os solitários, como tudo o que é self-service e express. Não se trata disso. Estou falando de restaurante mesmo, com maitre, garçom, cardápio, música e várias outras mesas lotadas de casais, turmas e afins. Não consigo enfrentar sozinha.

Restaurante não é um lugar onde se vai para matar a fome: é um espaço para socializar, para apreciar um bom prato, um bom vinho, compartilhar.

Sozinha é um desperdício. Com quem conversar enquanto seu entrecot não vem? Com quem brindar? Com quem rachar a conta? Nã, nã, nã, nã, é por isso que os serviços de telentrega prosperam a olhos vistos. Ficar em casa dá no mesmo e sai mais barato.

Admiro quem veste uma roupa bonita, pega um táxi e dirige-se a um restaurante alinhado, onde é recebido com pompa e circunstância.

Aparentemente, é a mesma coisa que ir a um teatro ou exposição: vai-se para apreciar uma obra, no caso o talento do chef. Pode-se considerar um evento cultural como outro qualquer. Mas haja desprendimento. Só mesmo os 100% independentes conseguem levar esse plano até o fim. Estou satisfeita com meus modestos 99%. Mesas ocupadas por um único cliente dão sempre duas impressões: ou ali está um gourmet a serviço, provando as delícias que irá criticar amanhã na sua coluna de gastronomia, ou é alguém que levou o bolo com muita dignidade. Prefiro um tele-pastel.

Julho de 1998