Trem-Bala
Verdades e Mentiras
Um dos comerciais mais premiados da história da propaganda brasileira mostrava no vídeo a silhueta de um homem. enquanto o texto dizia mais ou menos isso: “Iniciou-se cedo no estudo das artes. Gostava imensamente de cães, ouvia música clássica e reunia-se com crianças e gente do povo.
Quando no governo, reorganizou as finanças, abriu estradas e transformou o país numa grande potência. Em seu testamento, deixou dito que somente o amor e a lealdade lhe guiaram os pensamentos e ações em vida. Horas antes de morrer concordou em se casar com a mulher que sempre lhe fora fiel”. Ao término do texto, conseguíamos ver o rosto do dono de tão nobre biografia: Adolf Hitler. O comercial, que era assinado por um jornal de São Paulo, terminava com a seguinte conclusão: é possível dizer um monte de mentiras falando só a verdade.
Os chilenos conhecem bem essa mágica. Augusto Pinochet: 83 anos daqui a duas semanas, casado com Dona Lucia, pai de cinco filhos, católico. Em seu discurso de despedida do cargo de Chefe do Exército, em março desse ano, disse que servir à pátria era sua única razão de ser. Enquanto esteve no poder, de 1973 a 1990, construiu a Carretera Austral, que interliga todo o país, e liderou a reconstrução social, política e econômica do Chile, fazendo a transição para o regime democrático e entregando a Patricio Aylwin, presidente eleito, um país desenvolvido e modernizado. Tudo verdade. Tudo mentira.
Os chilenos hoje dividem-se entre aqueles que enxergam o lado bom do regime ditatorial de Pinochet e aqueles que reconhecem que nenhum lado bom vale uma vida humana. Não há estrada que compense uma tortura, não há investimento estrangeiro que pague o desaparecimento de milhares de pessoas, não há progresso que justifique um único assassinato político.
Nem mesmo a democracia chilena é o que aparenta ser. Nenhum país é 100% democrático se precisa negociar com as Forças Armadas o dia de amanhã.
Surgiu, agora, a chance de se fazer justiça e de o Chile virar uma nação realmente livre, e sem precisar sujar as mãos. Pinochet foi entregue a julgamento público internacional, acusado de lesar a humanidade.
Diplomaticamente, o governo chileno mobiliza-se em favor do seu ex-presidente e atual senador vitalício, mas, no íntimo, todos sabem que essa é uma oportunidade de ouro para resgatar a honra chilena e alertar os ditadores à solta de que certos crimes não prescrevem. Aos que acham que o velhinho, já com a saúde debilitada, merece ser deixado em paz, não custa lembrar que as mães dos desaparecidos, também velhinhas, também com a saúde debilitada, jamais saberão o que é paz enquanto mentiras valerem mais que a verdade.
Outubro de 1998