Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 97 de 107

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Trem-Bala

Os Caras e Suas Carangas

Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer. Entre no meu carro e, na estrada de Santos, você vai me conhecer.

Roberto Carlos sempre foi ligado em automóveis, ao menos em suas letras de música. Começou falando de calhambeques e terminou fazendo um filme que se chamava A 300 km por hora. Aí choveu mulher e ele não precisou mais usar esse recurso: permitiu-se virar um romântico.

Desde que o par de pés masculinos foi substituído por dois pares de pneus, essa idéia é amplamente divulgada: quanto mais possante o carro, melhor o homem. É um cartão de visitas irrefutável. Que loção pós-barba, que nada: perfume de carro novo é que conquista as mina, é ou não é, Ronaldinho?

Não sei quem deveria se sentir mais ofendido, se as mulheres, por serem tratadas como interesseiras que jamais sairiam com um jogador de futebol se ele andasse de ônibus, ou se os homens, que jamais conquistariam uma Suzana Werner se não tivessem tração nas quatro rodas, air-bag, bancos de couro e injeção eletrônica. Caráter e inteligência são opcionais.

Outro dia assisti a uma reportagem onde a repórter Renata Celibeli testou o poder de sedução de um rapaz desconhecido e feiosinho. Colocou à disposição dele um Porsche reluzente e uma câmera escondida, e lá se foram, cara e caranga, para a rua Augusta, em São Paulo. A paquera rolou solta. Garotas lindas faziam fila para dar a ele o número do telefone e marcar encontro para mais tarde. Dia seguinte, o rapaz recebeu uma Variant 76 para passear na mesma rua. Elas não deram nem as horas.

Seleção natural da espécie.

Em países que têm um serviço de transporte público decente essa avaliação feminina é dificultada. O sujeito pode ser um ricaço e morar num prédio elegantíssimo de Paris, só que sem garagem. Problema nenhum: há uma estação de metrô em cada esquina. com motorista e tráfego livre à disposição. Ou o cara pode ser um magnata de Nova York e se locomover pra lá e pra cá de yellow cab. E esqueçam John-John Kennedy, que ele só anda de bicicleta.

Eu posso falar porque já namorei de ônibus, de Fusca, de Maverick, de Veraneio e outras marcas que, já naquela época, deveriam estar estacionadas num ferro-velho: nunca achei que carro fosse pré-requisito para a paixão e sempre desconfiei de veículos cujo capô batesse na minha cintura. Certa vez, preferi cruzar a cidade a pé a entrar num SP2, e confesso publicamente: estou pra ver algo mais cafona do que uma Ferrari vermelha, esteja quem estiver no volante. Fora isso, sou uma garota normal.

Junho de 1999