Trem-Bala
Sexo e Verdade
Arnaldo Jabor falou no Jornal Nacional, e depois repetiu no Manhattan Connection, que o sexo pode ser mais desestabilizador do que uma crise econômica. Não foram essas as palavras, mas resumo: a queda da bolsa na Coréia atinge menos os Estados Unidos do que as aventuras sexuais de Bill Clinton.
O caso Clinton x Monica Lewinsky tem pouco a ver com fidelidade. Os americanos até engolem aventuras extraconjugais, mas não aceitam que o presidente minta para eles. Como se fosse possível o presidente falar em cadeia nacional pra toda a nação: “Gente, eu traí a primeira-dama, fiz tudo o que essas peruas andam dizendo. Confesso porque sou um bom garoto.
Agora, deixem-me governar em paz”.
É ingênuo achar que o presidente de uma superpotência vá revelar suas fraquezas, magoando esposa e filha em nome da verdade. Quando o assunto é sexo, presidentes mentem, motoristas de táxi mentem, a humanidade mente. É um assunto íntimo demais para ser discutido em praça pública.
Bill Clinton está acertando como presidente, e é o que importa. Se está errando como marido, cabe a Hillary chamá-lo a depor, não a mídia.
Estamos tão acostumados a ver estrelas de tevê dando detalhes de suas aventuras eróticas que acabamos achando que o resto da população deve imitá-los. Não mesmo. Sexo é assunto privado, seja oficial ou paralelo, hetero ou homo, a dois ou grupal: se não for crime, diz respeito apenas aos diretamente envolvidos. Já se um ministro rouba, é de nós que está roubando. Se uma garota bebe antes de dirigir, é nossa vida que está correndo risco. Mas o que acontece entre quatro paredes, sem dano aos outros nem a si próprio, não é da nossa conta. Alerta: a palavra privacidade está sendo riscada do mapa. Estamos condenados à transparência e a chamar essa superexposição de honestidade.
Reivindicamos um mundo sem segredos, perfeito. Seria mais perfeito se não fossemos tão hipócritas.
Juscelino Kubitscheck, soube-se depois de sua morte, teve uma amante. O que isso mudou nos livros de história? Nem uma linha. John Kennedy deu mil e uma utilidades à mesa do Salão Oval da Casa Branca e segue sendo um ícone. A princesa Diana foi infiel e só falta ser canonizada. Já Fernando Collor, ao que se sabe, é fidelíssimo a Rosane. Nunca flagraram algo que desabonasse sua vida conjugal, e seu caráter, no entanto, é a jóia que todos conhecem.
Sei que é um pensamento complicado, mas infidelidade e falta de caráter nem sempre caminham juntos. A infidelidade não é um ato contra alguém, não é uma decisão que se toma para prejudicar outra pessoa, a não ser nos casos mesquinhos de vingança. Não é, também, um sacramento, uma atitude digna, que mereça aplauso. Infidelidade é sexo, e isso não é fácil de julgar. Pode acontecer por amor, por curiosidade, por solidão, por atração, e ninguém está livre desse pecado, seja uma dona-de-casa ou um presidente da República.
Clinton meteu-se em maus lençóis. O moralismo da América, aliado à sede de poder dos republicanos, vai balançar seu mandato. Tudo por causa de um tabu, de uma indiscrição, de uma verdade que também sabe enganar quando lhe é conveniente.
Fevereiro de 1998