Trem-Bala
Os Melhores, os Piores e os Diferentes
Lendo Cadernos de Lanzarote, publicação dos diários escritos pelo escritor José Saramago, encontrei em determinado trecho uma idéia que há muito me persegue: como é limitado julgar os outros baseado no quesito melhor ou pior. Saramago, no livro, agradece, a uma leitora por tê-lo considerado um escritor diferente dos demais. em vez de achá-lo o melhor.
Não sei se foi falsa modéstia. mas prefiro acreditar que ele realmente sentiu-se mais elogiado assim. Hoje em dia. ou somos os mais bem vestidos, os mais viajados, os melhores cozinheiros, as melhores decoradoras, ou somos nada. Ou fazemos parte do time de vencedores, ou estamos do outro lado, perdendo. Vivemos num mundo absolutamente hierarquizado e maniqueísta: somos grandes ou pequenos, ricos ou pobres, integrados ou marginais.
Não que esse raciocínio seja destituído de lógica, mas incentiva pouco a criatividade. Julgar alguém melhor ou pior do que outro pressupõe que existam fórmulas soberanas, e melhor será aquele que obedecê-las. Admito que é utópico imaginar uma sociedade desprendida de juízos de valor, mas seria muito mais democrático, rico e estimulante um mundo onde a diferença fosse valorizada não como uma excentricidade, mas como busca de uma identidade própria.
Qual foi o melhor filme de 98, Titanic, de James Cameron, Carne Trêmula, de Almodóvar, ou Jackie Brown, de Tarantino? A maioria da população escolheria o primeiro, não porque seja original, empolgante, moderno, perturbador (não é), mas porque é o menos surpreendente, o mais igual.
Os outros fogem a qualquer parâmetro, não podem ser melhores nem piores porque não facilitam a comparação, diferem. Seu mérito é também seu castigo.
Por que o humor do Vida ao Vivo Show não emplaca, enquanto A Praça é Nossa comemora bodas de ouro na televisão? Por que as novelas são iguais, os locutores de FM sempre berram e as lojas vendem as mesmas roupas? Por que todos precisam de um forno de microondas, se sabemos que tira o gosto da comida? Ora, porque para sermos eleitos os melhores ou piores temos que nos adaptar às regras do consumo e do conviver. Nenhuma miss ganharia a faixa se usasse piercing, nenhum advogado chegaria a juiz se desmunhecasse e nenhuma senhora teria sua casa fotografada para uma revista de decoração se não tivesse o teto da sala rebaixado com gesso.
Somos, nem tanto por burrice, mais por reflexo condicionado, prisioneiros do julgamento alheio. Tememos outras alternativas que não sejam as já testadas e aprovadas. Os diferentes abrem caminhos, criam opções, sobrevivem da própria independência, enquanto os outros vêm atrás, concorrendo ao título de melhores ou piores em repetição.
Dezembro de 1998,