Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 102 de 107

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Trem-Bala

Bateristas

Era meio da tarde de um dia de semana. O telefone tocou e eu atendi.

— É a Martha? Desculpa te telefonar, tu não me conhece. Meu nome é Cau Hafner.

Eu conhecia.

— O baterista da Cidadão Quem?

O próprio. Cau ligou para dizer que curtia muito os meus textos e que havia lido em algum lugar que eu gostava de rock, e queria me dar de presente o último CD da banda, o Spermatozoon. Conversamos um pouco e, dias depois, ele foi me entregar o material no Café do Porto, onde eu participava de um evento. Havia muita gente e acabamos trocando apenas meia dúzia de palavras. Passaram-se algumas semanas e encontrei-o novamente saindo de um restaurante com o Duca e o Luciano: cumprimentos rápidos, tchau. Nunca mais o vi. Não era amigo meu, apenas um conhecido, mas lamentei sua morte porque bastaram um telefonema e dois esbarrões na rua para detectar sua energia positiva.

Sempre tive carinho pelos bateristas. No mundo glamurizado do rock, os vocalistas, baixistas e guitarristas é que viram superstars, atraindo fãs, repórteres e curiosos para sua vida íntima. Dificilmente um baterista se transforma num band leader e quase nunca escutamos sua voz.

Destroem com suas baquetas, mas não fazem muito barulho na mídia.

Os bateristas das duas bandas mais famosas do mundo não fogem à regra.

Perguntasse a qualquer garota qual era o seu beatle preferido e a resposta jamais seria Ringo Starr. Ringo era o feio, o bobo, o mascote do grupo. Charlie Watts, dos Rolling Stones, também nunca despertou fantasias. Mesmo no início da carreira já aparentava a idade que tem hoje, um senhor nascido para habitar repartições públicas e não palcos ao lado de Mick Jagger e Keith Richards.

O baterista é como o goleiro: seus egos são menos testados. Não lhes cobram carisma nem sensualidade. Passam a falsa impressão de coadjuvância. No entanto, têm o poder de determinar o resultado de um jogo e de impor o ritmo de um show, mesmo sem ocupar a linha de frente.

O baterista, assim como o goleiro, assiste lá de trás ao espetáculo que acontece diante da galera. Vibra sozinho e explode sozinho nas raras oportunidades em que faz um solo, como quem defende um pênalti. É esse exercício de humildade que acaba por lhes destacar.

Não sei se o fato de Cau ter sido baterista radiografa fielmente seu temperamento, que, ouvi dizer, estava mais para empreendedor do que para introvertido. Mas gosto de imaginar que sim, que era uma pessoa sem afetação, orgulhoso do seu papel e que também apreciava o silêncio, ao contrário do que sua profissão fizesse supor. Pena ter saltado da vida tão cedo.

Julho de 1999