Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 70 de 107

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Trem-Bala

O Bicho Homem

Até o momento em que escrevo este texto, segue sem desfecho o seqüestro do irmão da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano, que foi tirado de casa no último dia 16, em Goiânia. Para desestabilizar a família, os seqüestradores ainda não fizeram contato, mas o telefone da casa dos artistas não pára de tocar. Foram mais de 50 trotes até agora.

Não entendo como alguém pode ligar para a casa de uma família desesperada apenas para se divertir com a situação. É um lazer barato, sem dúvida.

Por apenas 18 centavos o minuto, um inconseqüente disca para os Camargo e, assim que uma voz aflita atende a chamada, começa a mentir sobre o cativeiro da vítima, inventa valores de resgate, passa informações desencontradas, ou seja, faz de bobo o interlocutor. Depois desliga com a missão cumprida: como bom parasita do sucesso alheio, sugou meio minuto da atenção de quem, em estado normal, não lha daria ouvidos.

No dicionário Aurélio, o trote tem como significado uma zombaria, um flauteio, uma troça, uma caçoada. Dito assim, parece inocente. Pois foi uma zombaria o que os adolescentes de Brasília alegam ter feito com o índio Galdino, queimando-o numa estação de ônibus. Foi uma troça o que o estudante de Medicina Leandro Pinho, da PUC de Sorocaba, fez com um colega, ao qual também ateou fogo, em agosto último. Quando os veteranos de uma turma recebem os calouros com coquetéis de produtos químicos, tesouradas nos cabelos, tinta na cara e outras brutalidades, é apenas uma caçoada. Depredar orelhões, grafitar prédios históricos? Passatempo.

Considera-se brincadeira inclusive essas pegadinhas infames dos programas de domingo. São, isso sim, humilhações pelas quais passam pessoas que têm uma rotina miserável e que jamais sonharam em aparecer na tevê. Elas aceitam falsos empregos, testemunham falsos adultérios, são passageiros de falsos táxis e viram falsos reféns, participando de uma encenação sem consulta prévia. Quando revela-se a armação, o estrago já está feito: a maioria autoriza que se coloque a cena no ar em troca de um cachê de fome e do sonho de sair do anonimato por 15 minutos. Ora, é só uma flauta.

Querem se divertir? Para isso existem cinemas, parques aquáticos, circos, bares com karaokê, desfile na avenida, vôlei de praia, ciclovias, gincanas, Beto Carrero World. Trote não é diversão, mesmo quando vem maquiado de zombaria, troça ou caçoada. Trote é trote, que o dicionário também classifica como o andar dos eqüinos, aqueles que chamam a atenção pelo barulho que fazem com os cascos.

Dezembro de 1998