Trem-Bala
Um Silva a Menos, um Collor a Mais
James Fernando Brás da Silva era, até mês passado, um estudante de 18 anos que só tinha certeza de quem era sua mãe. Através de um teste de DNA, confirmou as suspeitas sobre quem era seu pai: Fernando Collor de Melo. James é filho do rei.
Com um sorriso de orelha a orelha, James saiu do anonimato. Teve fotos publicadas nos jornais e já soube que seu futuro está garantido. Terá o mesmo direito de herança dos meio-irmãos Arnon Affonso e Joaquim Pedro.
“Minha vida está melhorando”, disse James.
Depois de passar os últimos dez anos escondido da imprensa para não atrapalhar a carreira política do ex-presidente, que se recusava a reconhecê-lo mas pagava pensão para evitar escândalo, James agora tem permissão para dar entrevistas e assinar o sobrenome Collor de Melo. Um Silva a menos no Brasil.
James tem o mesmo sobrenome de Ayrton Senna e de Faustão, mas isso não há de lhe confortar. É mais um Silva entre milhões de Silvas não-identificados nesse mundão de Deus. Agora ganhou a chance de deslocar seu Silva para o meio e escalar para a lateral um sobrenome de peso, epíteto de presidente, gente importante, seu pai.
James ganhou um pai. Essa é a boa notícia. Um pai para abraçar neste domingo, para acompanhar seus estudos, para receber conselhos, para dividir segredos, para orientar seus passos, para admirar, respeitar e receber amor, um pai. James precisa disso tanto quanto os outros garotos.
Que James tenha a sorte de esse pai não se transformar num presente de grego, num tipo manipulador que usará a paternidade assumida tardiamente para angariar votos e vender a imagem de bom moço, mais bom moço que Pelé, que até hoje ignora a filha que todos sabem que tem.
Que James, tão orgulhoso do sobrenome que herdou, não herde também o dom do cinismo, da desonestidade, da cara-de-pau. Que James conquiste o legítimo direito de afeto, mas que esse não lhe seja cobrado caro. Que James seja o que é, um filho, e não um oportuno cabo eleitoral. Que aproveite a chance de estudar no exterior, aprender inglês e praticar esportes, mas que não seja obrigado a ceder seu caráter e sua ingenuidade em troca de tantos privilégios. Que permaneça Silva, o James, nesse mundo por aqui de Collor.
Agosto de 1998