Trem-Bala
A Hora e a Vez dos Fanáticos
Reconheço: para muita gente, um BMW de segunda mão está valendo mais do que um bom caráter. Entendo que, quanto mais o mundo se torna materialista, mais a religião conforta, mais força ganha sua função escapista. Admito que os valores atuais andam sem pai nem mãe, sobrevivendo às custas da boa vontade de poucos. Estou quase convertida, notem. Mas, de fanatismo, poupem-me.
Vamos ao assunto. É sobre a regulamentação da lei que autoriza mulheres grávidas que correm risco de vida ou que tenham sido estupradas a recorrer ao aborto através do SUS — Sistema Único de Saúde —, ou seja, pago pelo Estado. Polêmica. Histeria. Crucifixos tirados às pressas dos baús. Uma verdadeira guerra irracional, se é que existe outro tipo de guerra.
A lei que permite o aborto nos dois casos citados — risco de vida e estupro — existe desde 1940. É claro que há gente que não concorda.
Natural, nada na vida é unânime. Mas os protestos não chegavam à mídia.
Era, supostamente, um assunto encerrado. Foi preciso vir à tona a lei que autoriza o direito à assistência médica gratuita para despertar a ira daqueles que falam diretamente com o Senhor. Eles são contra o que, afinal? Contra o aborto nos casos permitidos por lei ou contra a assistência médica gratuita? Parece ser apenas mais uma oportunidade de gritar contra o aborto, pelo simples mencionar do assunto. Mas não é só isso. A verdade é que eles não querem que o Estado facilite a vida das hereges. O Irã é aqui.
A fronteira entre o emocional e o racional é tênue como um fio de cabelo.
Racionalizar sobre paixões é o pior dos exercícios: prefiro fazer 300 abdominais. O inconsciente coletivo não quer saber da experiência privada de cada um. Sua filha de 13 anos foi violentada por um marginal e engravidou? Sua irmã tem hipertensão e pode morrer na mesa de parto?
Danem-se. Que venham os bebês. Os psiquiatras estão aí mesmo para juntar o que sobrar das mães.
Ser contra o aborto é uma atitude legal e legítima. Ninguém é obrigado a aceitar. Mas negar a realidade é o pior dos ópios. Milhares de mulheres pobres não querem abortar: elas precisam abortar, seja por risco físico ou risco psicológico, e têm nas mãos, agora, a primeira chance de fazer isso de graça, com higiene e segurança. Os fanáticos que acusam essas mulheres de assassinas é que estão matando sem saber. É um atraso imperdoável.
Não é de hoje que a política contabiliza vitórias e derrotas em cima de dramas pessoais. A vida dos outros, mesmo alheia à nossa, nos pertence.
Chama-se a isso sociedade. Quem pode, procura uma clínica clandestina.
Quem não pode, procura um carniceiro e entrega a Deus.
Agosto de 1997