Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 73 de 107

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Trem-Bala

Em Perigo de Extinção

Gosto muito do escritor uruguaio Mario Benedetti, inclusive estranhei o pouco caso com que foi recebido pela crítica o seu romance A Borra do Café, lançado ano passado no Brasil pela editora Record. É o relato da infância e da adolescência de um menino em Montevidéu, uma espécie de autobiografia do autor, mas narrada como ficção: bonito à beça.

Mas foi um poema recente de Benedetti que me trouxe até aqui. No livro La vida ese paréntesis, lançado no Uruguai em 1997 e, até onde sei, ainda não traduzido para o português, está um poema chamado Extinciones, onde o escritor alerta para algumas coisas que estão em perigo de extinção, além de baleias e mico-leões dourados. “Tambien enfrentan ese riesgo/las promesas/los himnos/la palabra de honor/la carta magna/los jubilados/los sin techo/los juramentos mano en biblia/la ética primaria/ la autocrítica/los escrúpulos simples”.

Não resisti em fazer minha própria lista. Além da Mata Atlântica e da Floresta Amazônica, correm sério risco de extinção os jardins em frente às casas, e as próprias casas, e com elas os animais de estimação. Em processo de extinção entraram o “por favor”, o “obrigado”, o “com licença” e o já desaparecido “desculpe”. Em risco estão o “gosto muito de você”, “discordo de você mas aceito seu ponto de vista” e o “pode contar comigo”. Segue preservado o “eu te amo”, mas muitos deles respiram artificialmente.

Benedetti diz que os sem-teto estão prestes a ser extinguidos. Não só eles. Os sem-maldade, os sem-segundas intenções e os sem-arrogância também. Em compensação, reproduzem-se em velocidade alarmante os sem-educação, os sem-humor e os sem-responsabilidade.

Pudor, agora, só em flash-back. A Verdade também está sumida do mapa. A Solidariedade ainda sobrevive, mas não anda solta nas ruas. Discrição, esqueça: nem em cativeiro.

Correm risco de extinção o ar puro, a praia limpa, o cinema feito de emoção e idéias, as estrelas vistas a olho nu, o beijo por razão nenhuma, os amigos de infância, os Rolling Stones, o prazer de estar na estrada, os restaurantes que servem comida feita na hora e o picolé de abacaxi, que não encontro em lugar algum. Ficaram na saudade as cartas escritas à mão, os cursos de datilografia, as mulheres difíceis, o papo inteligente e os livros que você emprestou. E não ligue a televisão para ver programa de auditório no domingo, se quiser que seu estômago e seu cérebro não entrem na lista.

El rechazo al soborno/la cándida vergüenza de haher sido/e el tímido dolor de ya no ser. Se a poesia, ao menos, escapar do abate, nem tudo está perdido.

Janeiro de 1999