Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 83 de 107

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Trem-Bala

A Minha Porto Alegre

Daqui a dois dias é aniversário de Porto Alegre. Terá negrinho, cachorro-quente, balão? Que nada. É mais uma dessas datas em que a única convidada é a reflexão.

Nossa cidade é como a casa da gente. Quando somos crianças, é nela que nos sentimos protegidos, já que é a única referência de mundo que temos.

Quando somos adolescentes, nos rebelamos contra ela, passamos a considerá-la um local limitado, e tudo o que se quer é cortar raízes, pegar a estrada e descobrir outros cenários. Só na idade adulta é que vamos conseguir enxergá-la como ela realmente é, com suas qualidades e defeitos, e, mesmo optando por viver longe, resta o conforto de ter um lugar para voltar.

Porto Alegre é o meu endereço no planeta. Tem o tamanho que eu gosto: nem tão pequena que me sufoque, nem tão grande que me deixe perdida. É uma cidade média: meio conservadora e meio moderna, meio pacata e meio agitada, meio resolvida e meio não.

Porto Alegre é alegre, o que é uma feliz coincidência. Poderia também chamar-se Porto Seguro, já que não tem o mesmo índice de violência do centro do país, ou Porto Belo, já que é bonita à sua maneira, ou ainda Porto Rico, se a riqueza em questão for cultura e qualidade de vida.

Poderia, pensando melhor, chamar-se apenas Porto, como o Porto português, um nome não-adjetivado e que remete a partidas e chegadas. Toda cidade tem que ser abandonada ao menos uma vez.

Entre Porto Alegre e Londres, Porto Alegre e Nova York, Porto Alegre e Paris, eu não pensaria duas vezes: ficava com as outras. Mas voltaria.

Porto Alegre não tem os parques britânicos, nem o pique nova-iorquino, nem o romantismo francês. No entanto, tem alma, sobrados, buganvílias, praia, morros, ladeiras, chaminés, palmeiras e parabólicas. Tem bairros que permanecem os mesmos desde que nascemos, tem bares que abrem, bares que fecham, poucos restaurantes charmosos, muitos cinemas, engraxates, mulheraços, botecos, bingos, buracos. Porto Alegre tem a seu favor o nosso passado. Andamos por ela de olhos fechados, conhecemos seu cheiro, preenchemos seu espaço. Poucos sabem o nosso CEP, mas nos reconhecem em cada sinaleira. Amor e ódio, amor e saudade, amor e entrega. Não importa quantas avenidas do mundo já atravessei: Porto Alegre será para sempre minha rua sem saída.

Março de 1999