Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 44 de 107

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Trem-Bala

Uma das maiores audiências do programa do…

GRÁVIDOS

Uma das maiores audiências do programa do Ratinho foi no dia em que ele entrevistou um homem que julgava estar grávido. Uma das maiores bilheterias de Schwarzenegger foi quando ele protagonizou um homem esperando nenê no filme Junior. Homens grávidos mexem com nossa imaginação. E se fosse verdade?

Ele chega em casa com o resultado do laboratório na mão e uma lágrima escorrendo pelo rosto: o teste deu positivo. A mãe da criança abraça-o com entusiasmo, mas em seguida se afasta para proteger a barriguinha do marido, mesmo que ainda não se note nada. “Querido, é o maior presente que você podia me dar.” Ele quer comemorar, abre uma cerveja, mas ela lembra que ele deve parar de beber. E de fumar. E não deve cometer excessos, como correr no parque, jogar tênis e sinuca. “Nem sinuca”? E também não pode se emocionar: o futebol será vetado nos próximos meses.

Outra lágrima escorre pelo seu rosto. “É emoção”, mente o gestante.

Dia seguinte, reunião no escritório. Sete executivos em volta de uma mesa. É a vez dele, como gerente de marketing, expor aos clientes a estratégia de lançamento do novo produto da empresa. Ele está confiante no projeto mas não consegue conter a náusea. Seu estômago embrulha. O cheiro do cafezinho faz ele pensar em correr para o banheiro. Sua camisa está empapada. Pede licença e retira-se às pressas. Alguém salva o colega: “É que ele está grávido”. Ah, bom. Um cliente confessa: “Já estou com 34 anos, quero engravidar o mais rápido possível”. O outro emenda: “E eu que passei por três cesarianas! Mas só enjoei na gravidez do caçula”. E a reunião segue nesse tricô.

Oito meses depois, a barriga já não permite que o futuro papai feche seu paletó de três botões. Quando vai ao banco, é encaminhado para o caixa sem precisar entrar na fila. No guichê, a funcionária tenta ser simpática: “Barriga pontuda: é um menino”. Ele sorri e nega. A ultra-sonografia acusou uma menina. “É sua primeira?” Ele assente. “Vai tomar anestesia no parto, né? Se fosse você, eu tomava.” Ele sente um arrepio, e não é por causa do saldo.

Passam-se 30 dias e ele está deitado, lendo o livro do Dr. Delamare, quando sente o lençol úmido. A bolsa estourou! No caminho para o hospital, faz a esposa jurar que não vai sair do lado dele nem um minuto. “Quero que você segure a minha mão.” Ela sorri, emocionada. Ele sorri, apavorado.

Sou defensora da igualdade entre os sexos mas não sou fanática. Eles não precisam engravidar para sentirem-se pais de verdade. A gente se encarrega disso. Homens têm a vida inteira para gerar seus filhos.

Crianças não nascem prontas: papai tem muito tempo para mostrar a que veio.

Agosto de 1998