Trem-Bala
Vencer Sem Se Perder
Gustavo Kuerten surgiu do nada e quando vimos era o campeão de Roland Garros de 1997. Um menino que se auto-intitulava “manezinho da ilha” e cujo ídolo era um tal Jacaré. Um garoto que pouco ligava para quantas estrelas tinha seu hotel em Paris e que não tinha uma Brooke Shields torcendo por ele na platéia, mas uma mãe, uma avó e um treinador que era quase um pai. Muito parecido com a gente para ser um campeão.
Quando tudo indicava que ele se transformaria num fenômeno mundial, começou a perder feito louco, errar bolas fáceis. Não chegou a ter convulsões, que isso é coisa de craques mais visados, mas teve lá suas dores de barriga. Jurava-se que ele nunca mais passaria das segundas rodadas, virando uma espécie de Rubinho Barrichello do tênis: simpático, mas condenado a ficar no meio do caminho.
Um ano depois, eis que manezinho ergue a taça novamente: é o campeão do ATP Tour de Stuttgart, título conquistado domingo passado. Mostrou-se o mesmo Guga, com a mesma modéstia, a mesma valorização da família e a mesma gratidão: deu seu prêmio, um Mercedes poderoso, de presente para Larri Passos. Chique, mesmo, é isso.
Guga é um campeão que nos deixa relaxados. Expõe logotipos de patrocinadores no seu uniforme, como todo atleta profissional, mas não carrega nos ombros a obrigatoriedade da perfeição, o endeusamento da própria imagem, a angústia por não acertar sempre. Quando terminou a partida final que lhe deu o título na Alemanha, Guga declarou que agora tinha saldo de felicidade por mais um ano. Quando todos esperavam ouvir dele que iria ganhar todas daqui por diante, Guga reconheceu publicamente sua vulnerabilidade: fará que a alegria dessa vitória segure a barra das próximas derrotas, porque aprendeu que nada dura para sempre, nem aplausos, nem vaias.
O mundo prefere astros mais heróicos, glamurosos. Prefere os que andam em carrões, namoram loiras incríveis e são consumidos pela própria vaidade. As estrelas do esporte merecem tudo isso, mas tenho um fraco por quem também dá valor a coisas menos ofuscantes. O jogador Emerson, por exemplo, demonstrou humildade e educação ao comprar um terno antes de se apresentar à Seleção. Foi um gesto trivial, mas revelador. Gosto de quem não tem vergonha de ser quem é, que não se deixa inflar pelo próprio ego. Acho essa gente muito mais campeã. Vencer é não perder pontos, não perder gols, não perder posição, mas é também não perder-se de si mesmo, talento que poucos têm.
Agosto de 1998