Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 105 de 107

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Trem-Bala

Ilha dos Lobos

 

Mulheres que correm com os lobos, livro da psicanalista Clarissa Estés, que já citei nesta coluna, aborda um tema que não só mulheres, mas homens também, defrontam-se diariamente: as conseqüências da domesticação. Diz o livro que nossa grande tarefa é decidir sobre o que devemos deixar viver e deixar morrer dentro de nós. Levando-se em conta que nascemos com uma carga considerável de selvageria em estado bruto, o dilema estaria em desenvolver as qualidades que nos possibilitam interagir civilizadamente em sociedade, sem perder os instintos com os quais nascemos e que nos personificam.

“Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas”. Clarissa Estés conclui assim o prefácio do seu livro, fazendo os leitores salivarem diante do que vem pela frente.

E o que vem não é uma historinha sobre Tarzan, Mogli ou Rômulo e Remo, e sim a história de todos nós, nascidos na selva de concreto, onde há leis bem estabelecidas e punições para quem não as obedece. Leis que não estão escritas em lugar algum, que foram sancionadas pelo inconsciente coletivo e que estimulam a parecência de todos. No entanto, “aproximar-se da natureza instintiva não significa desestruturar-se, não significa perder as socializações básicas ou tornar-se menos humana. A natureza selvagem possui uma vasta integridade”.

Homens e mulheres são convidados a deixar morrer, dentro de si, uma libido que, normalmente, é livre e abrangente. Deixamos morrer, também, uma curiosidade por trilhas vicinais que nos tentam e nos assustam, sobrando como opção o caminho já desbravado pelos outros, devidamente asfaltado e sinalizado. Deixa-se morrer a fome pelo novo, a coragem para enfrentar dificuldades, os sonhos aparentemente inacessíveis. Dia após dia, civiliza-se o lobo dentro de nós.

O grande desafio é conseguir fazer boas opções na vida sem alienar-se. É seguir os rituais comuns a todos os seres de duas patas, sem que seja preciso amputar as outras duas, pois só elas conhecem o caminho que leva à liberdade e ao instinto, dois lugares que não precisamos freqüentar com assiduidade, mas que é bom saber onde ficam, para o caso de um dia precisarmos voltar para buscar a parte de nós que deixamos para trás.

Agosto de 1999