Trem-Bala
Jogando Pôquer com Burroughs
Uma vez perguntaram a William Burroughs se ele não estaria usando sua reputação de escritor para promover uma exposição de quadros de sua autoria. Perguntinha maldosa, cuja resposta foi um direto no estômago: “Claro que estou. É preciso saber aproveitar todas as cartas que temos”.
Na mesma entrevista, ele arrematou: “As pessoas devem expor-se ao público antes que este perca o interesse”. William Burroughs, todos sabem, morreu esse ano, mas o interesse por esse beatnik continua, mesmo estando ele fora de circulação.
Nem se discute: discrição é uma qualidade rara. Gente que não fala muito sobre si mesmo e que não conta vantagens é um luxo. Nada como uma vida low profile, com direito a sorrisos enigmáticos e silêncios providenciais. Não tem coisa mais patética do que alguém querer aparecer, aparentar, forçar a barra para vender uma imagem. Mas se uma porta foi aberta para nós, revelando nosso potencial, não há por que não tentar abrir outras. É aí que Burroughs entra em ação.
Algumas pessoas se queixam de que nada dá certo em suas vidas. São as vítimas do esquecimento alheio, do ninguém-me-ama, ninguém-me-quer. Mas se olharmos de perto, descobriremos que essas pessoas esperam que tudo caia do céu e só rezam pela cartilha da sorte, recusando-se a mexer um dedo para intervir no resultado final. Dizem-se discretas, tímidas, reservadas. Podem até ser, mas quanta passividade.
Todos, ao nascer, recebem as cartas a que têm direito. Uns recebem vários ases, outros ficam repletos de curingas, outros não têm nada que preste nas mãos. Cabe a cada jogador comprar, descartar, fazer seu jogo. Isso inclui trapaças? Não. Isso inclui perspicácia, senso de oportunidade, concentração. Engana-se quem pensa que vai vencer sempre. Não existe auge eterno, a não ser para os gênios. Como eles são meia dúzia, cabe a nós, simples mortais, reconhecer o momento certo de agir.
Algumas pessoas que estão hoje em evidência souberam seguir à risca o carpe diem. Fernando Henrique aproveitou sua boa atuação como ministro para virar presidente. Lula deu-se bem como líder sindical e investiu na carreira política. Paulo Coelho passou de letrista de rock a escritor de best-seller. Arnaldo Jabor, com a sua experiência no cinema, renovou os comentários para televisão. Marisa Orth, que está a anos-luz de ser uma Michelle Pfeifer, aproveitou a popularidade do Sai de Baixo para faturar uns trocados na Playboy. Luma de Oliveira capitalizou sua beleza estonteante investindo numa marca própria de cosméticos. Angélica, Eliana e Xuxa aproveitam a fama que têm junto aos baixinhos para vender brinquedos. Embusteiros? Não. Rápidos no carteado.
Criticar o sucesso dos outros é mania nacional, mas diga-se em sua defesa: ninguém fará nada por eles a não ser eles mesmos, e isto também serve para nós. Não há nada de errado em querer abrir o leque de opções, jogar-se no desconhecido, experimentar. “Arrisque quando estiver vencendo, desista quando estiver perdendo”, lembrou Burroughs. Só não vale blefar.
Setembro de 1997