Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 40 de 107

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Trem-Bala

O Sexo das Mães

 

Leio a maioria das revistas femininas. São todas iguais entre si e iguais a elas mesmas nos últimos anos, e mesmo assim é um vício que não consigo largar. Outro dia estava lendo um exemplar que trazia mais uma dessas reportagens que pretendem nos ensinar a ser feliz em 10 lições. A matéria sugeria uma mudança de hábitos na vida sexual dos casais para evitar a monotonia. Se você é solteira ou recém-casada, pode seguir passo a passo os mandamentos da revista, ainda que nessa fase da vida o sexo esteja longe de ser morno. Mas para mulheres com filhos pequenos, a reportagem é cômica.

“Talvez o sexo esteja preguiçoso porque você sempre faz amor no quarto.

Por que não arrastar o colchão até a sala?” Grande idéia. Seus filhos sempre quiseram brincar de acampamento.

“Mostre o seu talento. Faça um strip-tease.” Seja original e escolha You can leave your hat on, de Joe Cocker, como trilha sonora. Mas nada de detonar no volume. Dê um fone de ouvido para seu marido. Não vai ser ele quem vai fazer o caçula pegar no sono de novo, caso acorde. “Não deixe o sexo para o fim de noite. Assim que ele chegar do trabalho, seduza-o no corredor ou na cozinha.” Isso, mate a curiosidade da gurizada. Eles sempre quiseram saber o que passa na tevê às duas da manhã.

“Amarre seu marido na cama.” E peça depois para o Júnior vir soltá-lo, porque papai tem uma reunião às oito e você é péssima com nós.

“Dê uma lista de coisas sacanas para ele trazer quando voltar para casa: vibradores, óleos de massagem etc.” Quando as crianças perguntarem para que servem, diga que são os novos brindes do McDonald’s.

“Levem comida pra cama: mel, champanhe, geléias e se incluam no menu.”

Nada mais prático. Assim, quando uma das crianças gritar “mãe, tô com fome”, você já está com o piquenique armado.

“Ao ver televisão, deixem os dedos deslizarem pelo corpo um do outro e resolvam o assunto ali mesmo, no sofá.” Mas sejam rápidos. Usem um dos intervalos das Chiquititas.

Agosto de 1998

ABSOLVIDOS PELA CONVERSÃO

Se o autor de Torre de Babel, Sílvio de Abreu, tivesse interrompido o relacionamento entre as personagens Leila e Rafaela e jogado cada uma nos braços de um galã, Christiane Torloni e Silvia Pfeifer estariam até hoje no elenco da novela, devidamente reintegradas à sociedade e garantindo os pontos no Ibope. Mas o autor preferiu não convertê-las em nome de uma coisa pouco usada hoje em dia: coerência. Preferiu mandá-las pelos ares, juntas e apaixonadas.

Assuntos polêmicos costumam ser abordados com mais liberdade em minisséries e programas especiais, de fôlego curto, onde não há tempo para fazer guinadas no roteiro a pedido da audiência. Mas não foi o que aconteceu no episódio da última quarta-feira do programa Mulher, quando mais uma vez um casal de homossexuais femininos se desfez, graças à conversão instantânea de uma das moças. Depois de quatro anos vivendo com uma arquiteta, o personagem interpretado pela atriz Paloma Duarte decidiu, num piscar de olhos, casar com um homem e ter uma penca de filhos. O escolhido, claro, foi um ex-gay, para mostrar que a conversão é uma via de mão dupla. Nos Estados Unidos a conversão de homossexuais em heteros está sendo anunciada pelos conservadores como a salvação para essas pobres almas perdidas. E o que é bom para os Estados Unidos, você sabe: aqui também já pipoca um movimento que pretende recuperar homossexuais em grupos de auto-ajuda, a exemplo do que faz os Alcoólicos Anônimos. Homossexualismo é vício, diagnosticaram os heteros, todos Ph.D em amor.

O Brasil tenta, aos tropeços, entrar para o Primeiro Mundo. Sabe que, para isso, é preciso educação, saúde estabilidade monetária, abertura de novos mercados e geração de empregos. No entanto, um país só progride se souber evoluir também sua mentalidade. Se nos preocupássemos em evoluir apenas financeiramente, até hoje as mulheres não votariam e os negros continuariam a subir pelo elevador de serviço. A maneira como a sociedade se comporta também conta pontos no ranking dos desenvolvidos, e tolerância e sensibilidade seguem sendo vitais para avançar politicamente.

Estimular a conversão de um homossexual é um desrespeito ao livre-arbítrio e uma hipocrisia camuflada de boa ação. Sexo não é assunto de escoteiros. Os brasileiros estão cada vez mais familiarizados com celulares, computadores e tevê a cabo. Compram macarrão italiano no mercado da esquina, vestem Armani, dirigem carros importados e escovam os dentes com Crest. Uma modernidade patética e ilusória diante do atraso cultural que a maioria ainda orgulha-se de manter.

Agosto de 1998