Trem-Bala
Censo Interno
Quantos somos dentro de nós? Cada pessoa é habitada por diversas personalidades, e aí talvez esteja a origem da nossa angústia existencial. Todos exigem de nós uma classificação, um currículo de qualidades e defeitos que possam ser descritos em poucas linhas. No entanto, a contradição é nossa única marca registrada.
Você é moderno? Vejamos. Você lida bem com informática e tecnologia em geral, tem estilo para se vestir, é bem informado, freqüenta turmas ecléticas, faz turismo ecológico e seu espremedor de frutas tem design de Philip Stark. Você dá a impressão de ser a vanguarda em pessoa, mas acha deprê os filmes do Tarantino, chama o pai de senhor, cultiva samambaias e seus ídolos são Joan Baez e Emilio Santiago. Mezzo moderno, mezzo parado no tempo.
Você é mão aberta? Pergunte para suas namoradas. Hotéis, só suítes. Para beber, Don Perignon. Presentes, Van Cleef & Arples. Mas no dia-a-dia, quanta sovinice. Você analisa a conta do bar com uma calculadora em punho e arma um escândalo quando descobre que erraram no preço: cobraram 0,65 centavos por uma água mineral que, segundo o cardápio, custa 0,64.
Ladrões! E você salta do táxi duas quadras antes para economizar na bandeirada, mesmo que esteja chovendo granizo. Mezzo perdulário, mezzo avarento.
Somos corajosos para operar um tumor mas tomamos seis anestesias para tirar tártaro no dentista. Somos fãs da Madonna mas só transamos de luz apagada. Colocamos no carro o adesivo “Salve as Baleias” mas enxotamos aos pontapés o vira-lata que veio dormir na nossa porta num dia de chuva.
Não perdemos o Manhattan Connection nem o programa da Hebe, gostamos de champanhe e Fanta Uva, gastamos uma nota numa Cherokee para pendurar fitinhas do Senhor do Bonfim no retrovisor. Mais: fazemos o rancho no Carrefour mas gastamos o dobro num único patê da Fouchon, negamos esmola no sábado e vamos à missa no domingo, somos simpatizantes do feminismo mas não gostamos da idéia de nossa filha de 19 anos ir morar sozinha.
Você também? Bem-vindo ao clube.
Para muita gente, é difícil administrar tantos “eus” num único corpo. Ao depararmo-nos com nossas contradições diárias, ficamos com a impressão de sermos meio mascarados, pessoas de múltipla identidade, em quem não se deve confiar. Bobagem. Ninguém é 100% uma coisa só. A contradição é o sintoma de que você não pára de se questionar, de que reavalia constantemente suas escolhas, de que optou pela flexibilidade e pela renovação de intenções. Nascer e morrer sem nunca mudar de idéia é muito monótono. Seja sempre você mesmo, mas não seja o mesmo para sempre.
Setembro de 1998 .