Trem-Bala
Televisão: A Nova Casa do Senhor
Ele é o novo ídolo brasileiro. Olhos verdes, 31 anos, solteiro, quase dois metros de altura, ex-professor de educação física. Canta. Dança.
Faustão fez uma longa reportagem com ele. Ratinho o levou no seu programa. Gugu o colocou no palco ao lado de Leonardo, e por um momento parecia que Leandro havia sido substituído. Cantaram juntos. O auditório em pé, acompanhando letra e coreografia. É um fenômeno, o padre Marcelo.
Padre Marcelo é o principal líder da Renovação Carismática Católica, que congrega oito milhões de fiéis no Brasil. Suas missas, sempre lotadas, são transmitidas pela Rede Vida, emissora ligada à Igreja. O ritual é fundamentado em canções que poderiam estar tocando nas rádios FM. Lembra, longinquamente, o gospell americano. A intenção é resgatar os milhares de católicos que bandearam-se para a Igreja Universal de Edir Macedo, oferecendo uma Igreja mais moderna, mais festiva, menos opressora. É o novo marketing de Deus.
Quando os Engenheiros do Hawaii decretaram que o papa era pop, o Brasil inteiro abençoou a definição. Na comemoração dos 20 anos de papado de João Paulo II, um dos comentários mais assíduo foi sobre o efeito que o mundo globalizado surtiu no sumo pontífice. Ele foi o papa que mais deu o ar da graça na tevê, que mais viajou, que mais apareceu na Caras.
Ficou provado que todos os caminhos levam a Roma, inclusive os caminhos feitos de cabos de fibra ótica e de ondas eletromagnéticas transmitidas via satélite.
Padre Marcelo, em escala infinitamente menor de importância e infinitamente maior em exposição de imagem, está aproveitando o interesse da mídia para divulgar seu trabalho. É estranho, porque tudo o que tem a ver com exposição pública tem a ver com vaidade, um dos sete pecados capitais. Eu não me choco com mais nada, mas a ala conservadora da Igreja deve estar roendo as hóstias.
A televisão é uma sedutora imbatível e padre Marcelo sabe disso. Através do videotape, ele está difundindo sua mensagem e recrutando fiéis numa velocidade incomparável com a dos padres que se restringem a fazer a mesma coisa ao vivo, para platéia seleta, sem câmeras no recinto. Por outro lado, ele banaliza o catolicismo ao freqüentar o mesmo altar do grupo É o Tchan, do Katinguelê, do Pagode do Dorinho. Até onde se pode ir por uma causa nobre?
Acho saudável ver pessoas exaltando sua crença com música e alegria ao invés de esfolar os joelhos subindo 300 degraus para pagar promessa.
Nunca fui partidária da idéia de que o devoto deve sofrer, penitenciar-se, enclausurar-se. Simpatizo com uma igreja que permite que o corpo se mova, que a voz se solte, que a cabeça se levante. Resta saber se isso é uma tendência natural dos católicos ou se é manipulação da fé, uma espécie de promoção relâmpago para atrair clientes, cujo garoto-propaganda é um padre fotogênico. Oremos.
Novembro de 1998