Trem-Bala

Martha Medeiros · Capítulo 79 de 107

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Trem-Bala

Livros e Latas de Azeite

Meg Ryan, mais careteira que nunca. Tom Hanks, anos-luz de sua atuação em Filadélfia e Forrest Gump. O roteiro, previsível. A trilha sonora chocha. Os coadjuvantes, sem carisma. O que há de tão bom no filme Mensagem para você? Nada, não fossem as livrarias.

Tem gente que gosta de filme com bicho: porco, urso, macaco, cachorro, de preferência falantes. Eu gosto de filme com livraria. Pode-se imaginar meu êxtase diante do encantador Nunca te vi, sempre te amei, tradução estúpida para o filme 84, Charing Cross Road, que esteve em cartaz há muito tempo e cuja história tratava da correspondência entre um livreiro inglês e uma leitora novaiorquina viciada em raridades e primeiras edições. Eles mantinham um relacionamento sem jamais terem se visto, mas o amor que os unia não era sexual, e sim intelectual. Não bastasse a sensibilidade do roteiro e a inteligência dos diálogos, os intérpretes eram Anthony Hopkins e Anne Bancroft. A correspondência era pelo correio: a palavra internet ainda não constava dos dicionários. Foi meu cult movie por anos, eu que nunca havia traído Woody Allen.

O mote de Mensagem para você são as relações virtuais, mas o que rola paralelo ao romance é que interessa: a ameaça que as megalivrarias podem representar para as livrarias pequenas, de gestão familiar. No filme, o dono da megalivraria é um monstro insensível que vende livros como quem vende latas de azeite, e a livreira da esquina, com seu acervo restrito e atendimento personalizado, é o cordeirinho indefeso diante do mercado predador. Não resta dúvida que as livrarias menores são mais acolhedoras e que seus donos e funcionários têm mais intimidade com o produto. Na Europa ainda encontramos esses pequenos templos, com suas prateleiras abarrotadas de livros até o teto, cheirando a pó e história. Pode-se comparar um livro com uma lata de azeite? Nem sonhando, ainda que algumas mercearias também possuam alma.

Mas é romantismo querer negar a importância dos supermercados de livros, que nasceram nos Estados Unidos e agora aportam no Brasil. Por comprarem em maior quantidade, podem vender mais barato, e sabe-se que livro não custa o mesmo que um óleo de cozinha. São lojas imensas, onde você procura o que quer nos terminais de computador. Tem aconchego? Tanto quanto uma sala cirúrgica, mas a intenção não é mitificar a literatura, e sim torná-la mais acessível. Num país como o nosso, onde as pessoas mudam de calçada quando passam em frente a uma livraria, é uma benção que elas tenham invadido os shoppings e que os livros tenham ganhado códigos de barra.

Bibocas simpáticas ou megastores impessoais: que cada leitor freqüente o que lhe convém, desde que não saia de mãos vazias.

Março de 1999