Trem-Bala
Cultura de Rua
Hoje, qualquer metrópole brasileira tem parentesco com as metrópoles internacionais, ditas de primeiro mundo. Não temos os mesmos recursos de educação, saúde e habitação, como já era hora, mas podemos consumir aqui o que antes só se encontrava lá fora: carros, roupas, restaurantes, revistas, discos, vitaminas. Só uma coisa ainda não importamos e que faz uma falta tremenda em nossas cidades: a cultura de rua.
Nova York, Amsterdam, Munique, todas têm em comum mais do que riqueza aparente: têm arte aparente. Qualquer esquina, estação de metrô ou parque público serve de palco para apresentações de artistas amadores.
Vê-se de tudo nas ruas: malabaristas, mímicos, guitarristas, manipuladores de marionetes, atores de teatro, pintores, poetas, violinistas. Os peruanos, com suas flautas e ponchos, parecem ter aberto franquia: estão por toda parte, na frente do Louvre, na Piazza Navona, no alto do Empire State e espalhados pelas Ramblas. Nem o McDonald’s consegue estar em tantos pontos ao mesmo tempo.
Qualquer local, turístico ou não, serve para uma demonstração de talento, e todos ganham com isso. Ganham, em primeiro lugar, os próprios artistas, que, na falta de um contrato com gravadoras e de um patrocinador que banque apresentações em teatros fechados, não ficam em casa amargurando-se: buscam o seu público na rua, e conseguem sobreviver disso. Passar o chapéu não é vergonha nenhuma, é uma relação de troca como outra qualquer. E muitos nem são tão amadores assim: já vi muito músico vender o próprio CD na calçada por falta de uma colocação no mercado fonográfico. Aqui mesmo, em Porto Alegre, um grupo encenou recentemente O Barão nas Árvores, de Ítalo Calvino, em pleno Parque da Redenção. Palco melhor, não conheço.
Para a cidade e seus moradores, é um presente. Arte na rua faz qualquer dia parecer feriado. Nada deixa uma cidade mais alegre e divertida do que suas avenidas servindo como cenário de um show que não tem hora pra acabar. São manifestações espontâneas e superdemocráticas. Duvido que um operário, um bancário ou uma secretária que cruze com um saxofonista tocando Miles Davis não chegue mais feliz no trabalho. As cidades precisam deixar de serem vistas apenas como aglomerados de prédios, onde todos circulam com pressa, sem motivo para parar. Um corredor de galeria pode ter uma ótima acústica, um largo pode ter uma iluminação excelente.
Precisa mais?
O Brasil é o país mais musical do planeta e tem uma cultura riquíssima, e no entanto arte de rua, para nós, é carnaval em fevereiro ou rodinha de capoeira no domingo à tarde. É pouco. Os sem-gravadoras, sem-marchands, sem-editoras, enfim, os sem-contrato precisam começar a tomar posse das ruas do país. Certamente será uma invasão consentida e apoiada pelas prefeituras e pela população. Espaço tem de sobra e público é o que não falta.
Junho de 1998