Trem-Bala
Parto Sem Dor
Publiquei, em 95, um poema que começava assim: “parto do princípio/que todo parto é natural/nascer de cócoras, na água ou com fórceps/é nascimento igual...”. Já tinha uma filha na época, nascida de parto normal, e estava grávida de outra menina. Pouco me importava a maneira como ela viria ao mundo, desde que chegasse bem e com saúde. Dei sorte.
Foi parto normal de novo.
Parto é a glória. Algumas mulheres não concordam: tiveram partos dolorosos e demorados, dos quais não têm nenhuma saudade. Compreende-se, mas para a maioria de nós que tivemos contrações ritmadas, dores suportáveis e uma alegria imensurável, o parto é a consagração. Um momento 100% sensitivo, onde só o que conta é a natureza e o coração.
Não se pensa em absolutamente nada, em compensação sente-se tudo: a dilatação do corpo, o calor, a suspensão do tempo. É quando realmente fazemos jus ao título de fêmeas.
Se uma cesariana possibilita esse mesmo estado de graça, fico devendo a resposta, mas acho difícil. Há a emoção de ver nascer um filho, lógico, mas não a emoção de ajudá-lo a nascer. Cesariana é uma cirurgia, não muito diferente da retirada de um apêndice. É um recurso que deveria ser usado só em caso de extrema necessidade, para evitar risco de vida ou sofrimento intenso para a mãe e o bebê. Os obstetras brasileiros, campeões em cesarianas, acham que isso é romantismo.
O governo federal está lançando agora uma campanha estimulando o parto normal para ver se perdemos a liderança desse campeonato vergonhoso de partos com hora marcada. Já não era sem tempo. A jogadora de basquete Hortênsia, a quem admiro pelo talento e franqueza, pisou na bola ao dar depoimentos na tevê dizendo ter medo da dor de parto e marcando hora para seus filhos nascerem conforme orientação de um numerólogo. Tudo bem, ela tem o direito de acreditar que uma criança que nasça às 10:43 de uma segunda-feira será mais inteligente e destemida do que uma que nasça à meia-noite de um sábado, mas Hortênsia não contribuiu em nada ao divulgar essas frescuras para um povo que idolatra crendices. É confiar demais no mapa astral e pouco nos próprios genes.
Cesariana para salvar vidas, ok. Mas cesariana para ter tempo de ir ao cabeleireiro antes de baixar hospital, para aproveitar o alinhamento dos planetas ou para garantir a noite de sono do médico é um atraso. Parto normal é que é up to date. Nos Estados Unidos, França e Inglaterra nunca saiu de moda. Sabe-se que há menos chance de contrair infecções, o leite materno desce mais ligeiro e a mãe se recupera em menos tempo. E a dor?
Para isso existem anestésicos. Não tiram a sensibilidade e possibilitam que as mães participem ativamente da expulsão do bebê. Medo de injeção?
Então vai no osso mesmo, que a dor se dilui no êxtase. Nascer saudável é o que importa, reconheço, mas se essa grande cena puder ser liberada sem cortes, tanto melhor.
Outubro de 1997